Subir um rio de afetos

Daniel Jabra

Talvez Deus

Gabriela Faccioli

viver é um estado de exceção
tempos de incêndios

Marcelo Reis de Mello

desatados venceremos ou não. tentamos

Grazielle Pereira

news to home

invenção da roda

idioma dos anjos

Luiz Gustavo Cunha

trovoada
Francisco Bernardes

 

Depois do sol

Cesar Cardoso

Caso encerrado

Cleber Luis Profeta

Cinema do Inconsciente

Gisele Motta

s/t

Ana Costa

A Política do Ritmo

Camillo Cesar Alvarenga

Desenhos de
João Victor Barbosa

 

DOSSIÊ

POESIA DE QUA
RENTENA

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Subir um rio de afetos

Daniel Jabra

 

Sonhei que subia um rio enorme, mas não de largura, enorme de comprimento. Me lembrava o Marauiá, ou talvez fosse ele mesmo. Um rio de afeto, não um rio desconhecido. E eu ia subindo esse rio. Via do alto essa imagem minha percorrendo o rio. De sobrevoo, via o rio, mas não enxergava onde ele começava ou acabava, e descia de volta para a canoa, subindo. Ia subindo esse rio sabendo que nunca ia chegar. E eu ficava lá, subindo, indo... Até o momento que já não importava mais se ele tinha começo ou fim, se eu algum dia ia chegar em algum lugar, ou se algum dia eu saí de algum outro. Era só permanecer em movimento, percorrendo esse rio sem distâncias. Não havia mais começo nem fim, apenas o serpentear, continuar e ver além. 

Acordei com essa imagem que ficou forte, sentimento ainda presente no peito. Já acordado, fui investigando esse sentimento-mensagem. Pensei na quarentena. Senti que esse tempo de resguardo é como subir esse rio, sensação parecida como quando subo o Marauiá mesmo. E subir o Marauiá é mais ou menos assim: no primeiro dia de viagem a ansiedade por chegar logo é uma constante, fica-se pensando em tudo o que tem vontade de fazer quando chegar, com quem vai conversar primeiro, na casa de quem vai atar a rede, com quem vai à roça ou pescar... Muitos planos vão sendo feitos. No segundo dia a ansiedade já beira o insuportável e desperta irritação com tudo, o sol fica mais forte, os mosquitos mais chatos, o barulho do motor mais alto, a paisagem cansa e os planos que você fez ontem começam a ser esquecidos. É o dia mais difícil. Mas do terceiro dia em diante parece que o tempo muda. O som muda, a percepção muda. Não dá mais vontade de chegar logo, já parece que você vai ficar para sempre subindo o rio. Chegar já não é tão importante e assim a viagem fica mais agradável, paisagens-outras vão surgindo onde antes era “tudo igual”, ouve-se distintos cantos de pássaros, o próprio barulho do motor chega a se mesclar no som da canoa cortando a água e vira música. Nuances de luz aparecem mais brilhantes, surgem os aromas doces soprados pelos ventos e brisas que antes você não percebia. Tudo se faz mais presente, você se torna mais consciente da sua presença entre todas as outras. É neste momento que começam os encontros, mas distintos dos que você havia planejado no primeiro dia. Subir o rio é entrar dentro de si em territórios inexplorados, e ao estar nesse movimento meio sem fim, o tempo se transforma nesse tempo do ir sem chegar, do presente. Quando eu acordei senti isso. Passou o primeiro tempo da quarentena, e depois passou o segundo e agora estamos entramos nesse estado de estar indo sem precisar chegar, e o tempo já mudou. 

Daniel Jabra é graduado em Arquitetura e Urbanismo e mestrando em Antropologia Social pela UFSCar (SP). Trabalha com as comunidades Yanomami do Alto Rio Marauiá (AM) e atua como coordenador do Projeto Marauiá - Escola Yanomami em ações para o fortalecimento e manutenção das escolas diferenciadas da região.

 

Foto de Daniel Jabra, 2016. Saindo do Rio Negro na primeira madrugada de subida rumo às cabeceiras do rio Marauiá/AM.

talvez deus

Gabriela Faccioli

 

chover em maio um costume que se manteve, nesses
     tempos em que tudo cambia de lugar
e não sabemos mais onde estão os bolsos para esconder
     as mãos.
elas permanecem à mostra – lavadas e secas
dizem o homem a imagem e semelhança de deus
deus há de ter mãos

talvez deus seja duas mãos
de unhas cheias de terra e calos duros e quentes
incansável de construir – ou a dúvida
como se constrói sem mãos?
deus é uma retroescavadeira
chove ao som de Beethoven
e a chuva faz lembrar que ainda existe vida pra além desses
     dias que se alongam
e que algum dia – toda a repetição – se acabará em um
     minuto de puro êxtase para em
seguida voltar a se repetir mas
um minuto
ainda é
valioso – eu digo com o peito pulando – e uma saudade das       ruas largas de São Paulo às seis da tarde e tudo o que há 
     de denso e tóxico nessas cidades latinas – os ratos 
     ocupam o bueiro – o cimento é toda e a própria natureza
     ao som dos carros e os pés ágeis enquanto o sol se coloca
     entre os prédios e a sombra é dos corpos o maior afago
e é a sombra toda a natureza – a que toca esses corpos 
     humanos que caminham sem saber
– que caminhar é das ações a divindade\ 

 

Gabriela Faccioli é graduada em Geografia e produtora cultural, quase poeta.

viver é um estado de exceção

Marcelo Reis de Mello

 

amar o desamparo
ao contrário do que fazem
os que esperam
fincar aqui os seus ossos
ao contrário dos que erguem
com razão e pressa
(mas sem nenhuma graça)
imensos mausoléus
sempre soubemos, amigos
quem pensa demais acaba
por tornar-se um pouco
pálido – ganha a flor
mas perde o viço
por isso exercitar o gesto
indeciso o corpo
que hesita – ou quase
(como fantasmas novos
num inferno antigo)
ante o exato
e o êxtase
entre um silêncio que lacra
e um fracasso que diz
– dois estranhos generais 

Marcelo Reis de Mello é poeta, critico e professor de literatura. Doutor em literatura comparada pela UFF, é o orientador efetivo da área de literatura da Coart UERJ. Publicou, entre outros, José mergulha para sempre na piscina azul (Garupa, 2020), que inclui estes poemas.

 

tempo de incêndios

Marcelo Reis de Mello

 

a água se ensina pela sede
- Emily Dickinson

 

segundos antes 
do suicídio
as cavidades do crânio
(ardendo em febre)
abrem-se ao poço 
profundo – espelho
das piscinas de azulejo
ou vinil das casas 
amuradas.
mar absoluto – 
mergulho azul de lava
(as paredes, a água)
pequena fornalha uterina
onde aprende a nadar.
não tem mistério:
o amigo tomado pelo fogo 
acende seu último cigarro 
no sol da meia-noite
– um isqueiro de sebo
amarrado à entrada do bar.
não é preciso um salto
acrobático uma palavra
bonita um bilhete
de despedida.
já nem tentar salvar 
a própria pele ar-
-remessando outra caveira
queimada ao futuro.
em tempo de incêndios
coração é sede.

 

trovoada

Francisco Bernardes

 

nunca quis tanto não saber
aquilo mesmo que sei.
já aquele mesmo que sou
foi parte temente e
constante e, ainda que pouco,
foi casa também
por um instante e
eixo reformado do que havia sido antes,
praça sentada, rua minguante,
animal rasteiro, lento,
a morte que veio num passo e
eu nunca sei o que fazer
que não seja nada
sem meu eu mesmo
de antes.
e aquele eu outro que é
hoje parte crescente e
passiva de intrometer-se com gente
foi casa também,
partilhada, varanda de frente,
rua algo envidraçada,
os olhos contentes, amolados
em música e névoa
e guerra revogada, e
eu nunca soube o que fazer
que não fosse nada
sem o outro eu
de antes.
esse mesmo outro que foi
janela aberta e vento
corrente, hoje transmuda
em porta fechada,
atravancada de mobília, brilho empoeirado,
a vizinhança com peste,
bulbo de contágio,
epiderme infectada,
ruas algo de fachada e
eu nunca soube o que fazer
que não fosse nada
sem meu outro mesmo
de antes.

já aquilo que sei agora
é trovoada, epiderme ensaboada,
gente cansada e fora
de casa, mesa posta
e retirada – rua atrás de rua,
fechadas, luz engordurada,
os amigos de conversa atrasada,
homens, mulheres, olhos pesados,
animais num pulo, empoleirados,
vultos do contágio,
demiurgos do nada,
do retiro e da retomada e
eu nunca soube mesmo o que fazer
que não fosse ser
de meu outro mesmo
eu antes de mais nada
eu nunca sei o que fazer
que não seja nada
sem meu eu mesmo
de antes – sombra antecipada:
nunca quis tanto não saber
o que sei, que não fosse nada
nem alguém, de antes, de nada.
nunca quis tanto não saber
tudo o que não seja
hoje
trovoada. 

Francisco Bernardes, 28 anos, nascido em Belo Horizonte. Gosta de escrever contos e poesias que, em sua maioria, guarda para si mesmo e revisita com frequência.

 

desatados venceremos ou não. tentamos.

Grazielle Pereira

calada da noite. saturday night. tout va bien, jane fonda? aspas. seja eu! seja eu! deixa que eu seja eu e aceita o que seja seu então deita e aceita eu... deixa que eu seja o céu e receba o que seja seu, anoiteça e amanheça eu. corpo eu no meu corpo. deixa! fecha aspas. é a grande voz possível nos ouvidos quando nossos amores têm que dormir em paz. quando o beija eu tem que ficar pra próxima. vi ontem um filme. ata-me. a forma de amar ocidental, espanha, tudo sempre tão intenso, sagrada família, várias cores. antonio bandeira novinho beleza fatal irresistível. coisa grande. descobri hoje que uma das músicas do filme foi o hino da espanha contra o coronavírus. é bonito ver uma fotografia, muito mais que os meus textos, muito mais que tantas palavras tantas vezes. ata-me: a grande cilada a grande cilada de se acorrentar quando se quer que os eus se fundam em nó. é nós, é plural sempre. via o filme e pensava política. conversava hoje e repensava política entre confissões de liquidificador em telefone. falávamos: quando a gente achou que política é unidade? é desatar, é discórdia possibilitada pelo exercício da linguagem. é fora de ordem. canta, canta caetano, não é concórdia de todos homens, mas harmonias bonitas possíveis sem juízo final. e ainda se amigar na cidade, experimentar na cidade. há eros na cidade, nós dois animais na selva suja da rua. não é só no banquete na casa do amigo do sócrates. transas outras sem grandes projeções bacurau. não existe povo, unidade do povo, existem pobres que se comungam, comungam da falta. por outro lado, pletora jorge benjor já encarnou muita alegria e nina zur em seus manifestos. tá aqui, tá agora. por que aquela forma de amar, almodóvar? colado em mim, só pensa em mim. pensa em mim, chore por mim, liga pra mim, pra ele não, deixa ele. a grande entidade gil já alertava: o seu amor, ame-o e deixe-o livre para amar. ame e deixe. não ame ou deixe, brasil. deixemos a música universitária. que que eu vou fazer com essa tal liberdade? – mas daí já é pagode e não pode.

aliás, é político o doméstico? é lá que a linguagem se exercita nos seus primeiros movimentos, foi o ventre da minha mãe o primeiro território da hospedagem. falar, exercício físico que só pode advir do encontro. e do encontro, guardo na pele, no ouvido, no nariz e transita entre casa e cidade............. será que estaremos mais livres em casa é a pergunta que me fica de um último artigo pequeno grande de rancière à editora n1. faço política em casa, desobedeço, resisto e sinto pelos que não podem e querem, ganho viço, não apareço. e ainda sinto muito. ainda falo muito. amigamo-nos. tenha calma. coma gilberto gil, não há contraindicação, eros, amor, é tudo que move. aqui e agora.

(madrugada no rio de janeiro, 3 de maio de 2020) ∎

 

Grazielle Pereira é doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e advogada – obreira em isolamento.

news to home

Luiz Gustavo Cunha

 

À memória de Chantal Akerman e sua mãe. Também
para todos os filhos que erram o caminho de casa.

 

sei que não escrevo faz tempo
e que a senhora sente minha
falta e quer que eu retorne
mas acontece
que não sou mais o mesmo.
aqui não me reconheço
quando vejo que esqueço
de casa ao abrirem as portas do metrô.
fico triste quando me conta nas cartas
do pai
dos casamentos
das doenças
e ando pelas ruas da cidade
mesmo com saudade
olhando com muita atenção
os homens que nunca conheci
as mãos dadas anônimas

os drogados e os prédios sujos.
antes ouvia seus ecos
nos prédios
nas conversas dos velhos
sua voz doce e seu controle
na sombria liberdade desses bairros
que falam outra língua.
a ternura materna
no cochicho dos ratos
cruzando o asfalto.
sei que a senhora quer que eu volte
e no entanto não estou mais ouvindo sua voz
como antes, leio suas cartas
e o som se mistura aos carros
às pessoas
ao movimento
um útero de pavimento
mãe já não te escuto
mãe dói muito
não ser teu filho
mãe não
me deixe aqui sozinho. ∎

Luiz Gustavo Cunha é de Manaus e escreve desde pequeno. Cursa Letras (Língua e Literatura Portuguesa) na Universidade Federal do Amazonas. Publicou um conto na revista Torquato, uma publicação realizada por escritores amazonenses. Tem um blog onde publica alguns de seus escritos. 

Invenção da roda

Luiz Gustavo Cunha

me repito.
espiral e labirinto
dentro de cada gesto
que finjo escolher.
mesmo não querendo
me re
pito.
na rotina antropofágica
do vício
meu final se abre

para conhecer
meu início. ∎

 

idioma dos anjos

Luiz Gustavo Cunha

minha boca cuspirá poesia
de uma língua mágica
e artífice
se por acaso teu sêmen
resvala
sobre essas superfícies. ∎

 

Depois do sol

Cesar Cardoso

vemos o que não existe e nos ilumina
e caminhamos para a morte tentando decifrar a babel das luzes
luz morta das estrelas
piscar de lanterna em código
silêncio de explosão atômica
fervor de vela
paixão de abajur lilás
ferrugem de transformador
ansiedade de sinal de trânsito
lantejoula de tevê
simples fósforo na caverna
luz que mostra luz que mente
as tesouras e as facas ficam cegas com o tempo
os homens não se enxergam
os cegos também fecham os olhos
depois do sol quem ilumina o seu lar é a galeria silvestre, a
     galeria da luz
no rio de janeiro, dezoito horas, trinta e quatro minutos e
     dezesseis segundos ∎

 

Cesar Cardoso (carioca de 1955) escreve contos, literatura infanto-juvenil, poesia e humor. Suas últimas publicações foram Urubus em círculos cada vez mais próximos (contos, Editora Oito e Meio) e A Copa do Mundo do Faz de Conta  (literatura infantil, Editora Biruta). Escreve também para TV e mídias (revista Caros Amigos, jornais O Pasquim e O Planeta Diário,  programas TV Pirata, A Grande Família, Sai de Baixo e Zorra).

Caso encerrado

Cleber Luis Profeta

Esqueci a letra
Arrumei as malas
E fui viajar.


                                              Arrumei a letra
                                              Esqueci as malas
                                              E deixei de viajar. ∎

 

Cleber Luis Profeta tem 48 anos. Nascido em São Paulo, é casado com Regiane Teixeira Marcelino. Técnico Redator Auxiliar formado na Fundação Bradesco, tem crônicas e poesias publicadas no site Recanto das Letras

Cinema do inconsciente

Gisele Motta

Não foi cenográfico
Como esse cigarro
Ou minha vontade de acender
Foi tão real quanto um filme experimental
Documentário esquizo
Agora é vômito e dor na mandíbula
Não serei compreendida
Nem pelo particular nem pelo genérico
Mas não giro a roleta do ódio
Eu escolho o perdão na roda da vida
Eu escolho
Eu escolho a Vida

Afeto Catalisador, era desejo
Musa, não
Afeto sim

Antimatéria, buraco negro
A dor de dentro dói tanto mais
E eu não acreditava nisso
Aos 15
Eu não acredito nisso
Aos 28
A dor de fora é a dor de dentro

O dentro fora toda hora se complica
Se o mundo instaura medo, refúgio na abstração
Se o mundo acolhe, empatia
Animo os objetos, trago-os para mim
Os percebo, os vejo, os amo, os sou

Escrevíamos com luz, um no outro

Até que...
Virou arquivo, preto e branco
Memória Marginal

Estrela de oito pontas,  
O que aconteceu com você
Para você perver-ser? ∎

 

Gisele Motta é jornalista e mestre em comunicação. Sonhava em escrever livros para contar histórias, mas acabou produzindo filmes. Atua como produtora audiovisual, produtora cultural e arte-educadora com foco em Pedagogia do Cinema. A poesia é sua companhia diária há anos, em cadernos e recortes do cotidiano.

Ana Costa

 

Drenamos os que amamos,
usamos o que buscamos,
sentimos vísceras desnecessárias,
fugimos de efémeras nefárias

Drenamo-nos
Usamo-nos
Buscamo-nos
Descartamo-nos

Os beijos que congelaram
O amanhã que se esconde
O grito que teve ansiedade
O substituível que somos

Secos
Marionetas
Invisíveis
Reciclados ∎

Nascida no Porto, licenciou-se em Ciência da Informação, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Escreveu anteriormente os livros de poesia Misantropia esclarecida (2014, Livros de Ontem), Renascer Metade (2016, Livros de Ontem) e É sempre cedo, o que há numa rua deserta (2019, Livros de Ontem; é também autora de uma das fotografias constantes da colectânea Penélope (2014, Livros de Ontem e The Art Boulevard) e de um dos contos da colectânea Mens Sana (2015, Livros de Ontem e Fundação S. João de Deus). É hora vaga num mundo niilista.

A Política do Ritmo

Camillo César Alvarenga

 

[1] Até a publicação desta edição, 57.103 mortes causadas por COVID-19 haviam sido confirmadas no Brasil pelo consórcio de imprensa. 

I.
 

Desculpem-me por fazê-los esperar tanto,
desculpem-me o atraso,
mas só agora encontrei o Gonçalo,
ninguém houvera nos apresentado ainda.
Exu de tudo se encarrega e ajuda Oxóssi a acertar
a flecha que ainda nem atirou.
Ainda reféns do Estado, cantamos, tocamos
instrumentos nas janelas, dançamos, traduzimos poemas,
legendamos, fazemos macumba e outras feitiçarias,
enquanto pássaros (sumos sacerdotes) e morcegos
zapeiam por aí e assistem a nosso cativeiro virtual
cotidiano onde dia pós dia adiamos a morte,
as nossas e as de quem podemos salvar.
Já não lembrava há quanto tempo tinha fome
(e você, há quanto tempo tem fome?).
Entre carros e corpos até era quase tarde demais
a ter notícias do Gonçalo, era quase tarde demais
para descobrir a mim mesmo sob o silêncio dos búzios.
Indígenas subnotificados nas cidades, brancos também,
pretos nem se fala, mês passado 74 macacos morreram
de febre amarela no Paraná.
Um Yanomami foi enterrado sem ritual,
um grande mal para todo povo Yanomami e para “nós”
– falsos ocidentais paranoicos e hipocondríacos.
Quando o casamento acaba e há amor,
o fim é um ato de legítima defesa da amizade,
ou do amor próprio mesmo, quando há amor.
Damos a volta no sistema para beijarmos
a boca do eclipse no silenciar da noite,
e insultamos, com paciência, a insônia na Lua cheia de maio.
Há um insulamento (no lá fora e em nós), “comportamento geral”,
Gonzaguinha cantou: “você merece, você merece”
– E se acabarem com teu carnaval?
é o debate atual na Bahia – Lockdown é Tranca-Rua,
só invocando Exu de vez pra gente ir aprendendo
a dar passagem pra ele levar as oferendas a Edumaré.
Já perdemos tantos de nós todos os dias,
agora estamos prestes a perder +1– Muniz, Força, Sodré!
A PF acabou virando cabaré de bacana, tem quem manda,
desmanda e ainda reclama, reclaim, recall
– de superintendência em superintendência
a gente desentende tudo.
O racismo é esse resíduo que feito graxa
(azeitando o sistema)
se prende debaixo das unhas e se acumula
e se entranha nos dentes feito cárie nas bocas
de quem ainda não desaprendeu a sorrir.
Avisem, por favor, avisem aos meus amigos e editores que voltei,
a duras penas, a escrever e enquanto não partir (ou morrer)
estarei inventando uma outra língua em que
dizer sempre as mesmas coisas parecerá sempre
alguma novidade sem garantia ou importância,
mas real, alguma coisa real.
A doença é enterrada conosco quando morremos,
mas o vírus continua vivo.
E cada um guarda e aguarda pelo próprio cadáver
entre os ruídos e as ruínas da liberdade.

 

 

II.
 

Ante a paisagem, as canoas
invadem furiosas a maré.
Esses dias vi por acaso o documentário
sobre Tim Lopes, feito por seu filho:
– “microondas” e “Elias Maluco”.
Assim ouviu de populares o policial
que o encontrou, ou assim ouviu do
policial o jornalista que cobria a procura
por Tim Lopes: o que diria ele disso tudo?
Com sua microcâmera escondida, que
cotidianos sórdidos e cínicos faria brotar
nas páginas das pontas de sua pena afiada?
Será que a quarentena acabou
com as cracolândias em São Paulo?
Não vejo notícias, mas duvido muito.
Dizem que esse vírus é só um teste, só
um ensaio para uma tragédia maior,
é uma pena não estarmos preparados
para o fim da vida humana na terra,
ainda não sabemos o que vestir,
“com que roupa, com que roupa, eu vou...”.
Acho que não fui convidado a deixar a festa
por enquanto me deixaram para assistir
e me comover, para sofrer e me indignar,
para começar a revolução e me revoltar.
Enquanto contaminados morrem sem dizer
uma palavra, sem uma selfie sequer,
uma piscadela, sem nada mais,
as covas dizem tudo a todos com suas grandes
bocas abertas, não chegam nem a 7 metros,
não há tempo para cavarmos tão fundo.
– Rápido!
O presidente não é coveiro.
– Rápido!
O presidente é Messias, mas não faz milagres.
– Rápido!
É preciso varrer os corpos, esconder os contêineres
e soterrá-los às centenas de milhares por dia por todo o país.
Mas o silêncio não é o fim, os familiares ainda precisam
dar entrevistas para as mídias sensacionalistas de plantão.
Cuidado com os emoticons para que eles não
te deixem emocionado em demasia.
Lamento em vão a última injustiça,
a última desigualdade da moda
ou o viral da vez.
Onde será que foi parar aquele feliz ano novo
do último réveillon – acho que muita gente
não tava mesmo acreditando nisso este ano.

 

 

III.
 

Em esforços de Guerra avançamos
em campo de batalha contra inimigos
visíveis e invisíveis. Coronavírus, racistas,
fascismos tropicais e falsos amigos.
Tens febre, tosse seca, falta de ar?
Não vá aos hospitais. Não há médicos,
leitos, respiradores... Uma carga de 600
respiradores que chegaria à Bahia
fim de semana passado ficou na Inglaterra
uma outra de 300 ficou nos EUA,
nunca chegaram a seu destino.
O Brasil deve estar sendo defenestrado
até pelos deuses.
Em Olinda cai água 1 dia na semana
e se acaba a caixa (quando enche)
sobrevive-se aos baldes.
Não sei como podemos combater o vírus
se não conseguimos oferecer água potável
e corrente às pessoas diariamente.
Estamos plantando quiabo e mamão
no canteiro do quintal, o pé de feijão verde
se espalha pelo chão sem achar lugar de se enramar.
Como se manter são, lógico, pusilânime na quarentena?
Rodrigo Maia é um pusilânime incapaz de abrir um pedido
de impeachment contra o presidente (sem partido)
– e ainda chamam a isso democracia...
01, 02, 03, 04 são só esses os números
até onde ele sabe contar, por isso não
entende o que significa 10.000 [1] mortos no país.

 

Por isso tem tanto uma certeza escatológica
de que terminará o mandato (mas que mandato?)
– ora... e que o 04 seja o seu filho da moda faz sentido
para que se lembre que precisa durar 4 anos, mas mal
sabe que o 02 vai lhe derrubar, não numa bola dividida,
mas numa “rachadinha”.
O Rio de Janeiro já não recorda mais o Maracanã lotado
e o mister ameaça não renovar enquanto o Brasil
não se tornar o epicentro mundial da Pandemia
– o que não está a demorar para o alívio
dos flamenguistas (e do fantoche de milico) –
mas que fiquem aliviados em casa ou se juntem
para morrer nas ruas abraçados
ao carnavalesco calor carioca.
Saio à rua e tenho medo da chuva,
penso nela conter partículas do vírus,
assim como moléculas do vírus
foram encontradas no ar de grandes cidades,
mesmo assim a chuva me molha,
e eu ainda respiro, mesmo não estando
em uma grande cidade, temendo.
Nunca achei que fosse importante
saber algo, digo saber qualquer coisa.
Rasguem sedas a ninguém, ninguém é exemplo,
nenhum país está bem, nem os que voltaram
com o futebol, nenhuma família está segura,
não há ser humano confortável na Terra hoje.
Cada um disfarça como pode as próprias mazelas.
Aquele que disser o contrário estará mentindo,
desconsolado lambendo as próprias feridas deste caos
e tentando se agarrar a si mesmo inventa a paz
quando dorme ou finge para si mesmo que o faz.

 

 

IV.
 

As garças tomaram o lugar dos pescadores
e agora caçam dos barcos.
As garças continuam pescando.
Que importam as garças?
Os pescadores não desistiram do mar
mas não podem sair.
Pesquisadores desistem da possibilidade
de suas hipóteses virarem teses
por conta do cancelamento das bolsas
de pesquisa pelas agências de fomento.
Nada científico. Nenhum motivo além
da Política. A Política do Ritmo.
E ainda dizem algo sobre a neutralidade axiológica da ciência.
Mas agora todos acodem à ciência,
até aqueles que a desdenham. Você
deixaria de vacinar seu filho contra
o Sars-Cov-2? Ou melhor, contra esse
tal de corona, covid-19, o tal “vírus
chinês”? Não é só porque os maiores
laboratórios da indústria farmacêutica
mundial vão lucrar bilhões que você vai
deixar de se vacinar, não é?
Até onde o radicalismo ideal
pode levar o idealista radical?
Até Marte, à Lua, a outro continente,
à África, a um outro estado, até a esquina?
Ou a próxima Diáspora até uma nova galáxia
onde haja menos racismo?
Pai e filho americanos matam jovem atleta americano
que passava correndo.
Bala perdida por esporte ou pura perfídia?
Diriam os cientistas sociais: atavismo sócio-racial,
hábitos arraigados na memória social,
costumes naturalizados internamente,
objetivação de violência racializada cotidiana.
Enfim, o poder de matar prevalece
entre as normas sociais que não falham,
como as leis da Física ou de Maat
ou, simplesmente, as “leis da natureza”
ou a seleção natural. A essa altura,
ainda seguem mais abandonadas que perdidas
as teses dos cientistas (sociais ou não).
Uma nanobiologia-social microhitech-Lo-Fi 5G
se anuncia como língua franca.
Desde 1999 quando Matrix foi lançado
a ciência e a cultura pop nunca estiveram
tanto na boca do povo, ou não.
Não sei.
Só sei que as hipóteses teimam em
não virar teses.
Por que será?
Por que todos os pacientes que aparecem nas matérias
dos jornais parecem que já estão todos mortos?
Por quê?
Será que já morreram na hora em que
foram ao ar as reportagens?
Ou aquelas imagens são apenas espectros holográficos
de vidas que já se foram e os corpos que vemos são tumbas
animadas pelo vírus em busca de novos hospedeiros?
Os repórteres, as câmeras, os microfones?
As luvas, as máscaras, os óculos de proteção
que não nos protegem do horror genuíno
que sofremos, pasteurizamos e assistimos
em câmaras refrigeradas e congressos
comprados com dinheiro e cargos públicos.
Bob Jeferson, O Retorno
– o 5º Cavaleiro do Apocalipse.
Carreatas e carne assada (cancelada?
Que piada!) – eis o menu do Palácio do Planalto,
mais um fim de semana em que a semana não acaba.
A crise não acaba.
O governo (hobbesiano Leviatã) também não,
e óbvio a pandemia também não acabará
esse fim de semana.
Israel, USA e a República das Milícias do “Zapistão”
repetem assombrosamente mais uma vez
seu bordão agônico e fantasmagórico refrão
:
– “‘E daí’, ‘Tá Ok’?”

 

 

V.
 

No Brasil
há mais militares
     nos ministérios
que na Venezuela.

 

O milico miliciano
verde-amarelo
não cairá de Maduro.
Não há fugas
através dos vazios.

 

Está proibido faltar às reuniões
(até no home office).
As definições de trabalho
estão sendo atualizadas
instantaneamente e o
instantâneo
motiva a morte,
a morte como motor,
a morte faz-nos cada
vez mais não morrer,
ou melhor, morrer menos ou,
pelo menos,
mais devagar.


No Brasil
parece até que não
e s t amos no Brasil. Uma pena que não
e s t amos na Nigéria,
em Lagos, Ogum State ou Osogbo
– terra dos ancestrais.


Quando será possível?
É preciso que nos encontre a morte
para retornarmos?

 

Atravessar a porta da rua parece
um grande desafio...

 

Perdemos Tony Allen e Litlle Richard
de uma semana para a outra.

 

Um fantasma passa
de uma porta a outra.

 

Meu passaporte venceu!
Que ironia!
Minha CNH venceu!
Que ironia!
Só nós não vencemos,
secos e vencidos,
duramos
ontem, hoje e amanhã
como todos os outros dias

 

– é preciso inventá-los
e alimentar os jabutis
(ou seriam cágados?)

 

Coço a barba
e começo a ouvir
os fios de cabelo da cara
rangerem contra as unhas
num ronronar fantasma os sons dos fios se encavalando
no tempo
uns sobre os outros
até virarem vozes que vão
ao chão e lá
repousam, em silêncio.
O tempo no casco das tartarugas
é um fantasma
(eterno)
é a manhã
que
se assoma nas
costas da neblina
e assombra quem ainda anda
e não dormiu
é o orvalho que inunda
os jardins desertos
enquanto as bicicletas trazem
(quem sabe?)
notícias da meteorologia,
as últimas do dia
ou, simplesmente,
os raios de sol da manhã.
Por enquanto
“nós que aqui estamos
por vós esperamos”
– agora é
legenda para o presente. ∎

Camillo César Alvarenga (31) é poeta, tradutor e crítico, nascido em São Félix, no Recôncavo da
Bahia. Autor do livro de poemas Scombros (Edufrb, 2012) e organizador da antologia de poetas baianos Canoas do Paraguaçu (Edufrb, 2012), publicou o poemário OFILTRO (Coleção Oju Aiyê, Portuário Atelier Editorial, 2013) e recebeu o Prêmio Maximiano Campos de Literatura (Instituto Maximiano Campos) na categoria microcontos no mesmo ano. Seu último livro, macumbe-se, foi publicado pela editora Kza 1 em 2018. Em Pernambuco, parcerias e diálogos com Phillipe Wollney renderam em 2018 a publicação do poema “O Amor é uma
espécie de falcoaria secreta” pela Internacional Cartoneira, na NÓS Cartoneira Antologia Literária. Passa pela Pandemia em companhia de sua mãe.