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cão

Isabella Beneduci

 

[1] Desejo duração nos encontros de urgências pequenas, e que, destes, movam-se as urgências
em comum, talvez ainda pequenas, mas que demandam esforços que, de tanto seguirem sendo esforço, tornem-se inchados e suficientes para seguir movendo esforços outros –
sempre. Desejo a inauguração de lugares formados por um modo contínuo e, portanto,
sempre em formação; inaugurando formas, formando inaugurações. Talvez mais do que
formação de lugares, o lugar da formação de desejos. O desejo no cão move os desejos do cão, que move desejos em mim, que deseja mover e ser movida por desejos em nós. Nosso
desejar-desejando.

 

Passo dias prumada no pensamento de como (d)escrever um cão que corre atrás do próprio rabo sem mencionar as palavras cão ou rabo. Traio o desejo logo de início. Talvez a tentativa de revelar essa imagem seja tão imprestável quanto o próprio cão. Escrita rodada. Ser cão é minha opção ou meu cômpito? Cômpito. Cômpito. Penso a fresta do entre a boca e o rabo que roda e move. Quem é que move, quem é que é movido? Incessante-incessar. Penso o rastro aerado que se faz ainda-indo. Penso o entrechão de pata e terra, pata e areia, pata e cimento. Pode a pata furar o chão (?) de tanto pisar – para quê? Pisar tanto. Parar é desistir? E recomeçar, será desistir de parar? Penso um parafuso espanado. Que gira gira gira gira gira. Parado, gira gira gira gira gira gira. Move parado. Move sem ir, sem sair, sem chegar. Sem chegar, chega em lugar nenhum. Parafuso imprestável. Texto parafuso. Penso um espaço de um metro cúbico e uma bolinha perereca que é disparada dentro dele. Bate rebate rebota pinga volta vai. Um dia ela fura a parede ou a parede um dia a destrói. Penso o rastro confuso que ela deixa. Frenético frenesi. Penso a sala suficientemente maior para que caiba um cão e a bola. Penso a tentativa do cão em cessá-la. Mas cessará ele sua vontade de que a disparem de novo? Não podendo sair da sala e sabendo da sua condição, voltará ele a correr atrás do rabo? Penso a roda atolada que acelera e gira em falso. Que roda mas não move. Move o chão, como o cão. Penso o mundo que gira; em torno do sol, em torno de si, e, em torno dele, a lua também. Lembro de rodar rodar rodar rodar até cair. Até que o labirinto se tornasse imprestável. Penso um labirinto redondo sem fim. Penso o número pi. Número imprestável. Penso Sísifo empurrando pedra que insiste em rolar montanha abaixo. Penso que não queria terminar esse texto nunca, assim como o cão, sísifo e o parafuso. Não sai nem da primeira página. Saída. Prefiro ser o cão que não pensa, corre. Penso uma sala branca de bordas arredondadas livre para ser. Livre até onde? 50 metros quadrados. Penso andar. Penso pensar enquanto ando andar enquanto penso. Ajo-agir. Penso os giros a serem caminhados nessa sala – enquanto o mundo gira, em torno de si, em torno do sol, e, em torno dele, a lua. Penso o trânsito – transeunte transito. Movo-mover. O que movo quando penso movimento? O que penso quando movo pensamento? Perguntas imprestáveis. O que faço quando acho estar fazendo algo? Alguém. Penso a sala branca outra vez. Outra vez não, ainda. Penso o sujeito que nela roda caminha roda arrasta. Sujeito imprestável. Penso o sujeito que pensa o cão que pensa o rabo. Pensamento entre: rabo-cão, cão-sujeito, sujeito-vontade, vontade- possibilidade, possibilidade (d)entre as possibilidades. Quantas? Penso sem limite. Penso, logo, limito. Cesso-cessar. Penso o horizonte incessante. Penso rastro horizontal circular orbital adiante no mesmo lugar. Sem chegar, sem sair, impermanente. Insuficiência perpétua. Penso o preso. Penso o condenado que é mais condenado por saber ser condenado sua condição primeira. Liberdade. O condenado não espera. Esperança – estado imprestável. Enquanto ainda penso o deserto branco. Sustentar a falta, sufocar-se de perda, invadir, transbordar. Borda. Limite. Penso medir andar contaminar os 50 metros quadrados, sem sair, fugir, chegar nele. Estar nele. Ocupar-ocupo. Finco escape constante, sucedo escapando a mim mesma. Penso o preso que conta adiante a sucessão. De quê? Tempo imprestável. Emprestar tempo. A quem? Um dois um dois um dois. Violentar o tempo, sufocá-lo de já. Corpo-agora. Inaugurar-se-inaugurando-se. Gerúndio perpétuo. Andando movendo sendo pensando permanecendo tentando continuando prosseguindo seguindo hesitando sucedendo falhando procedendo voltando forçando desistindo resistindo permanecendo revogando perdendo penando remando sucumbindo aguentando esparramando arrastando transmutando dançando girando rodando revoltando faltando estando gravitando pendendo esgotando indo. Findo. Fazer-fazendo. Agir-agindo. Estar-estando. Ser-sendo. Desejar-desejando. Pouco importa a duração de tudo isso, o que importa é que dure. [1]

Isabella Beneduci trabalha e atua como artista, pesquisadora e ilustradora. É mestranda em Artes Visuais na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Também integra o Metade ao lado de Ana Tranchesi; juntas, realizam trabalhos na interface da arte com outras disciplinas.

beassad@gmail.com