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eclética, plural e antifascista

Amuleto 

Mariana Ruggieri

Quem me vinga da mandiga

é figa de guiné

Não foi fácil encontrar muito sobre o contexto da frase “a nossa pátria está onde somos amados”, pelo menos não para além do fato de que foi escrita pelo russo Mikhail Lérmontov. Sobre a biografia de Lérmontov há muita coisa, apesar de ter morrido aos 27 anos. Sua curta vida, no entanto, interessa pouco aqui, cultivada e cultuada entre a aristocracia russa, uma vida dividida entre a leitura e a guerra. Pensando bem, enquanto via essa única frase repetir-se no navegador em links por meio dos quais eu era invariavelmente encaminhada a esses sites que compilam citações famosas, o que mais me intrigava era tentar imaginar de onde o pixador carioca havia retirado a frase, o porquê da escolha.

 

O tema desse texto é uma espécie de canção de exílio escrita em terras natais, um pixo feito por Kadu Ori em 2016 no relógio da Central do Brasil. A foto aérea do relógio marcado ao mesmo tempo expõe a fragilidade da tinta na face de um prédio construído ao modo dos gigantes e a força de uma frase clandestina no ponto mais alto do horizonte: Nossa pátria está onde somos amados. Ela foi apagada em menos de três dias. No coração do Brasil, à revelia dos ponteiros que marcavam a hora errada, contra o elefante getulista cuja razão de ser é a superação, via pastiche, do Big Ben, contra a estação de origem imperial, contra o controle do fluxo ordenado do tempo e dos corpos, um acrobata pendurado por uma corda fina dá continuidade à proeza de Vinga, que na década de 90 havia escrito “Eu pixo porque sou revoltado”. A questão parece ser a passagem da revolta ao amor, não como horizonte de sublimação, mas como possibilidade de contaminação mútua; entre os ponteiros que marcam o nosso cotidiano – ditam, por assim dizer – o seu ritmo, é possível dar a ver outros pulsos, outras batidas.

 

E são precisamente esses ponteiros que Kadu Ori maneja a seu favor, de acordo com o que podemos ver no registro que fez de seu próprio feito, aprendendo a utilizar o movimento deles para melhor escorar o seu corpo. Num dos momentos mais propensos ao calafrio, ele se contorciona para trocar de lugar com o ponteiro que avança em sua direção, um minuto a mais a cem metros de altura. Nesse sentido, não há corrida contra o relógio, mas mais bem uma dança; e a corrida é contra o amanhecer, que o exporia no lugar de seu rastro. Essa narrativa heroica, de um homem preso precariamente a um titã de concreto armado, no entanto, não produz uma pátria que, conquistada, pertence apenas a ele – minha pátria –, mas uma pátria que é nossa. E, mais notável ainda, a relação entre pátria e amor está deslocada para além do circuito evidente que demanda dos cidadãos o amor à pátria, mas também da colocação menos óbvia, mas igualmente desonesta, segundo a qual os cidadãos são amados pela pátria, como no hino do exército brasileiro, por exemplo.

 

No filme Central do Brasil, os personagens estão em busca de um pai, Jesus, o carpinteiro. Nunca o encontram; no lugar dele, irmãos, meios-irmãos. Nossa pátria está onde somos amados. Uma origem indefinida; uma pátria que não está dada, mas que é precisamente configurada só ali onde há a possibilidade de sermos amados, acolhidos. É a qualidade do amor e do vínculo que pode vir a dar a definição de pátria para além de um limite territorial a ser defendido. Segundo essa definição, a pátria pode caber em uma cozinha, um quintal, uma sala de aula. “Pátria” é, em si, um termo difícil de digerir; sua óbvia associação a uma masculinidade exacerbada, a autoridade sobre a qual erige sua existência. “Amor” pode ser ainda mais perigoso, como nos lembra Marcos Natali em seu texto “Questões de herança: Do amor à literatura (e ao escravo)”, onde retorna à figura de um Joaquim Nabuco ambivalente, um abolicionista comunicando sua nostalgia: “a saudade do escravo”. Inventar uma comunidade sob a insígnia do amor não basta para erradicar a violência, isto é, para deslocar o sentido mais perverso de pátria – não basta justificar um crime como passional.

 

E, no entanto, a foto tem sido um amuleto. Esse “nós” que instaura essa pátria é o mesmo invocado pelo Olhai por nóis pixado no Pátio do Colégio em São Paulo no início do ano. O amor que a frase reivindica são os nós determinados pelos “involuntários da pátria que não queremos”, como diz Viveiros de Castro. Contra, portanto, a imposição de uma ideia de Pátria maiúscula – ideia já frágil em um país onde pelo menos 5,5 milhões de crianças não têm o nome de seu pai no registro de nascimento. O filósofo Roberto Esposito diz que a comunidade é determinada não por uma relação de pertencimento, mas por uma dívida. Os sujeitos da comunidade, para ele, estão unidos por um dom que se dá e não por aquele que se recebe, no sentido de que aquilo que os une é sempre um “eu te devo algo”, mas nunca “você me deve algo” – a maneira do vínculo supõe dar ao outro sem sentir-se lesado. No Brasil que nos coube, essa relação só pode existir com um novo giro, por meio de uma comunidade que se forma para escancarar dívidas históricas.

 

Quem nesse momento reivindica para si a tarefa de tentar controlar o país é a classe dos ressentidos, que alça no horizonte uma imagem idílica de um passado que é, em realidade, marcado pela violência que alcança os nossos dias. Os ressentidos são compostos pelos muito poucos que reagem à conversão de seus privilégios em direitos e pelos muitos para quem esses direitos não se materializaram efetivamente no seu cotidiano. De um modo ou de outro, esse ressentimento ao processo de ampliação de direitos tem como desejo último que ninguém seja sujeito desses direitos fundamentais. O sentimento do ressentido conforma um projeto de morte, constituído pelo espírito da escassez generalizada e pela imposição de uma terra arrasada; em nada se assemelha à revolta onde abundam os afetos. Fernando Pessoa escreveu – em oposição à reforma ortográfica de 1911, cuja implementação simplificou radicalmente a ortografia – que a sua pátria era a língua portuguesa, que “a gala da transliteração greco-romana veste-m'a do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha”. Sua concepção de pátria linguística remonta à perfeição da origem e do poder concedido por destinação. Em sua releitura-resposta Caetano Veloso pergunta: “O que pode esta língua?” E ela só pode na medida em que está viva e, porque viva, roça e lambe outras línguas. E a língua só se move se há comida no prato.

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A nossa pátria está onde somos amados. André [1] me mandou um email às 2:46 da manhã para dizer que havia localizado o poema de Lérmontov, que ele faz questão de grafar Liérmontov, mas que não havendo encontrado nenhuma tradução ao português, tinha feito uma rapidamente. O poema se chamava “A Despedida”, era de 1832, ele dizia, e versava sobre o amor de uma mulher por um guerreiro lezgino. Não posso dizer que gostei do poema, embora tenha amado a tradução. Dividido em duas perspectivas, o eu-lírico feminino suplica e argumenta no decorrer de cinco estrofes para que o objeto de sua devoção permaneça com ela. O eu-lírico masculino tem a palavra final; nas duas estrofes que lhe cabem diz que enquanto viverem seus inimigos seus lábios não dirão eu te amo a ninguém: para ele, não há simultaneidade possível entre a luta e o amor. Embora esteja sofrendo excessivamente por alguém que conhece há apenas dois dias, a mulher tem bons pontos. É ela quem enuncia o verso pixado – sua ideia de pátria é retirada do lugar cívico e transferida exclusivamente para o vínculo cotidiano. Muitas décadas mais tarde, Diane di Prima, outra mulher, começa seu poema dizendo: “Acho que vou ficar por aqui / neste asfalto perigoso”. Depois explica: “pq / é aqui que meus amigos estão, / seus cretinos”. E por último o arremate final: “não q / vocês saibam o que isso significa”[2]. Mas o poema não termina sem nos lembrar das coisas das quais gostamos juntas: cogumelos, canções, borboletas. Até que gostamos daqui.

 

Amuleto é uma palavra de origem desconhecida. Suas formas são infinitas, figas, patuás, muiraquitãs. O que elas carregam são intenções. Sozinhas não podem nada. Não dá para tentar segurar um amuleto entre as mãos enquanto se tenta não afogar. Kadu Ori ensina: é deixar as mãos livres para trabalhar, enquanto o amuleto trabalha ali pendurado ao corpo. ∎ 

Edição: Clarisse Lyra

Mariana Ruggieri lê, escreve e traduz. Atualmente faz pós-doutorado na Unicamp. 

ruggieri_mari@gmail.com

[1] André Nogueira, cujas muitas traduções podem ser encontradas aqui: https://traducaoliteraria.wordpress.com/

[2] Em tradução de Rodrigo Lobo, disponível em: http://proximoaoequinocio.blogspot.com/2016/07/diane-di-prima.html