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A poesia vem de uma vontade de nos modificarmos

Cecilia Pavón

Entrevista por Eduarda Rocha

Encontrei Cecilia Pavón em uma sexta-feira de dezembro de 2019, no final da primavera de Buenos Aires. Eu a havia conhecido pessoalmente algumas semanas antes no evento que celebrava os 20 anos de Belleza y felicidad: editora em fotocópias, galeria de arte, espaço de encontro e lugar mítico para a cultura underground argentina, fundado por ela e pela escritora e artista plástica Fernanda Laguna em 1999. Ceci me recebeu em sua “Oficina de poesía” – “oficina” em espanhol quer dizer escritório, portanto, em seu “Escritório de poesia”. A poucos metros da Casa rosada, em um edifício pomposo, com escadarias de mármore, tetos altos e elevadores espaçosos, em que há vários escritórios de advocacia e engenharia, a poeta abriu o seu espaço, onde dava oficinas de escrita e organizava leituras antes da pandemia. Na porta, a indicação “Microcentro: oficina de poesía” contrasta com a burocracia dos espaços vizinhos, dando corpo a um lugar mágico, onde apenas se lê e se escreve poesia. Só agora, quase um ano depois, pude terminar de traduzir essa conversa instigante que durou algumas horas, nas quais ela conta sobre sua alegria pela recepção do livro Discoteca selvagem, antologia poética traduzida e organizada por Clarisse Lyra e Mariana Ruggieri, que havia sido publicado meses antes pela editora Jabuticaba; a emblemática viagem a Salvador que daria origem ao espaço de Belleza y felicidad; sua visão sobre a literatura brasileira; a vida de uma escritora que é mãe; a escrita de mulheres e muito mais.

 
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O livro Discoteca selvagem teve uma ótima repercussão no Brasil, chegando a entrar na lista de melhores livros de 2019 do suplemento Pernambuco, uma importante publicação literária. Como foi para você essa recepção do público?
 

Não posso acreditar, porque Belleza y felicidad começou na Bahia. E a Bahia, quando eu era jovem, era uma espécie de lugar místico. Nos anos 90, era bem menos turístico que agora, hoje em dia é muito turístico. Eu dizia à Fernanda [Laguna] “bom, vamos”. Eu tinha umas milhas para viajar e comprei também a passagem dela em troca de um quadro. Nessa época já estávamos pensando em abrir um espaço, e a Bahia tem toda uma estética das lojas, em que havia mesas redondas, as paredes, os quadros pintados nos bares, tudo isso nos inspirou muito, e também a literatura de cordel. Para mim, foi muito louco que, agora, 20 anos depois, o livro fosse publicado no Brasil, e também que entendam minha poesia no Brasil. Acho que houve algo dessa cidade [Salvador], dessa coisa do corpo na rua... Atualmente, o Brasil está passando por um momento horrível, mas quando eu estive lá era como se estivesse começando a ser gestado o que Lula faria. Havia uma espécie de democratização da cultura na rua. Talvez seja uma visão romântica. Nós fomos à Festa de Iemanjá, o 2 de fevereiro, conheci na Bahia o candomblé. Comprei vários livros de Jorge Amado, de Clarice Lispector. Lendo Jorge Amado conheci mais dessas religiões [de matrizes africanas], porque não sabia nada. Nós não tínhamos carnaval. Vimos as prévias, os trios elétricos… Daniela Mercury… Morríamos de calor. Eu adoeci em Morro de São Paulo, fiquei doente por três dias. Apesar disso, foi incrível a viagem, voltamos muito inspiradas pela estética, pensamos tudo em Belleza y felicidad copiando o que havíamos visto nas lojas de presentes e a literatura de cordel. Também vimos esses músicos repentistas que faziam improvisações, compramos uns cassetes deles.  Então o livro, para mim, é algo incrível, voltar ao Brasil dessa maneira.  

 
 

Outro dia você me disse que se sentia mais compreendida no Brasil, que se sentia como uma poeta brasileira, conte um pouco mais sobre isso.


[Risos]. Ah, acho que eu exagerei um pouco. Os de fora sempre têm uma imagem mais idealizada. Mas eu sempre senti como se houvesse algo com o sentimental no Brasil que é mais direto, como se as pessoas fossem sentimentais lá. A poesia, a Bossa Nova, o amor. E, ao mesmo tempo, muito conceitual. Nos anos 50, o Brasil tem a poesia concreta e a bossa nova. O sentimental, o brega e o mais vanguardista. Bom, a poesia concreta também tem algo do pop, eles usavam panfletos publicitários. Eu sempre escrevi com essa ideia de unir o intelectual com o mais popular, algo assim. E não sei por que no Brasil me parece que isso acontece. Não sei... Quem sabe é uma idealização minha. Acho que os argentinos são mais tristes. Eu tento escrever mais alegre, não sei se funciona. Acho que tem a ver com isso da simplicidade, que não é tão mal vista na cultura brasileira. Na Argentina, há uma questão geracional. Eu tenho muitos leitores mais jovens e, para eles, essa coisa está mais híbrida, do alto, do baixo, do pop, do acadêmico, eles já incorporaram. Os mais velhos talvez separem mais a poesia como algo sério. Com a internet acho que tudo mudou.

 

Você costuma ler literatura brasileira?


Fiz a tradução de uma antologia de poetas brasileiros, se chama Caos Portátil, para uma editora do México, e aí encontrei isso do conceitual. É algo que não havia na Argentina. Adoro Angélica Freitas, Ana Cristina Cesar, Clarice Lispector. Clarice me instruiu muito. Acabei de traduzir um livro de Lorrie Moore e a única pessoa que ela cita da América Latina é Clarice Lispector. Clarice tem isso de escrever prosa como se fosse poesia ou ensaio, uma escritora exemplar da vanguarda feminina, é aí onde se derrubam as fronteiras, tem a bruxaria também. Ela tem isso do feminino como algo intuitivo, quando não se falava muito de feminismos na literatura. Também gosto muito da Marília Garcia, que é mais conceitual, mais lírica. A diferença entre Argentina e Brasil é que o “eu”, a primeira pessoa, é menos permitida no Brasil. Aqui, através do “eu”, posso falar da minha vida, posso falar biograficamente do que me aconteceu sem nenhum tabu, depois dos anos 90. Na minha oficina, meus alunos e alunas argentinas sempre escrevem a partir do “eu”, e quando vem algum aluno brasileiro ou brasileira é mais conceitual, mais sério. É como se o vínculo com o confessional no Brasil fosse mal visto. E me dá a impressão de que isso vem da música, da bossa nova, porque a música é muito importante no Brasil, nós não temos essa música. Todos os músicos brasileiros são poetas na verdade, Gilberto Gil, Caetano Veloso, João Gilberto... Eles, sim, têm algo confessional, sentimental, como se na música fosse permitido. E isso é o que eu amo no Brasil, porque misturam as coisas, o mais conceitual com o mais confessional. Acho que é por isso que lá entendem meus poemas, porque é o que tento fazer. Aqui temos o tango, que é algo mais melancólico, para baixo. O tango é uma música feita com a linguagem da rua, o lunfardo, e tenho a impressão de que isso está mais na poesia argentina que na poesia brasileira.


Eu tinha mais contato com poetas de outros países quando houve a crise em 2001, porque a Argentina se tornou um destino muito barato e se encheu de estrangeiros, de mexicanos e de brasileiros, foram maravilhosos esses intercâmbios com vários poetas, mas depois isso se perdeu. Em 2007, tive um filho e acabei me voltando mais para dentro.


 

O que mudou na sua vida depois da maternidade?


É uma loucura ser mãe. Estou muito feliz, mas é uma coisa que você não tem ideia quando não é. Você fica muito envolvida com outra pessoa. É muito estranho para uma artista compartilhar a vida assim com um filho, é meio psicótico. Quando ele era mais novo, que exige muito mais, tive que deixar um pouco a vida social, e com Belleza y felicidad havia muita vida social, estava rodeada de pessoas o tempo inteiro. Eu sempre quis ser contra a ideia de família, contra isso de que “agora tenho um filho, agora sou séria, agora sou velha”. Quis ser contra esse mandamento social de que, se uma mulher tem um filho, tem que ser séria. Mas a vida vai te levando a amadurecer, é como uma luta.

 
 

Como isso afetou sua produção poética?


Em minha produção, não sei, a questão da brevidade ajuda. A ideia de que o homem fazia as grandes obras monumentais, porque se dedicava a seu trabalho literário, e nós mulheres tínhamos que fazer outras coisas. Isso quando você é mãe pesa muito e, inclusive, quando você não é também, porque as mulheres sempre assumem as tarefas de cuidados do outro, com os pais, com os parentes. Ser mãe é o extremo, porque tudo recai sobre a mulher. Você tem menos tempo, mas isso faz com que você veja a literatura de outra maneira, na qual começa a pensar que a obra não é uma coisa separada, autônoma e desligada do mundo. Tudo tem a ver com a gente, com o cuidado do outro, com os vínculos. Isso já existia na minha poesia, e quando você é mãe acaba se dando conta de que essa mudança cultural é também o que os feminismos necessitam para que nós mulheres possamos ser também criadoras, pois, do contrário, tudo o que for monumental e perfeito só pode ser feito por aqueles que não realizam as tarefas de cuidado, que são os homens. Os homens, ricos ou pobres, sempre têm uma mulher que lave suas camisas. Eu acredito que a mudança cultural também é pensar que a arte é outra coisa. O cânone considera menor a produção das mulheres talvez porque a mulher escreve de outro lugar que não é esse de um gênio trancado em um escritório. Pelo contrário, a mulher foi um ator social sempre envolvido em vínculos com os outros e o cuidado de outros e, por isso, vê a escrita e a arte de outra forma. Ter um filho me fez perceber isso porque o sujeito mulher – que não sei se existe –, o papel de mulher que você tem que cumprir quando é mãe, não é autônomo, não é esse sujeito autônomo da modernidade. É um sujeito sempre amarrado aos outros. Ser mãe é sempre estar amarrada ao filho que sai de você. A ideia de sujeito é diferente. Para mim, isso é o interessante do feminismo, que o individualismo, que é algo tão masculino, tem de ser questionado socialmente porque essa é a única maneira para que possamos chegar a uma sociedade mais justa socialmente, melhor para todes que pensamos no outro. Talvez seja uma idealização. Eu acredito que, no fundo, essa ideia tão egoísta de “sou um gênio”, que é muito masculina, está sendo cada vez mais questionada. Penso que, para as novas gerações – tenho muitos alunos de 18, 19 anos –, a figura do macho está muito desprezada na cultura, não tem chance de ser aceita, isso é muito importante.


 

Você diria que sua poesia é feminista?

 

Ai, não sei. Mudou tanto a palavra “feminista” e a ideia de feminismo, há muitos feminismos. Quando eu era jovem e estava na universidade, eu entrei em 92, não se falava de crítica feminista, o paradigma crítico era o estruturalismo, Derrida, Barthes, Foucault. Fiz um mestrado nos Estados Unidos – não terminei, porque achei tudo muito careta, fiquei durante um ano – e ali conheci a crítica feminista, li Judith Butler, e acho que isso me influenciou. Mas, desde jovem, antes de haver escutado a palavra feminista, estava no ar, na cultura, acredito que intuitivamente. Qualquer mulher da minha idade que começava a escrever enfrentava uma ideia de feminismo intuitiva, não teorizada, porque realmente não era algo comum que as mulheres escrevessem. É como se você começasse a escrever e, por ser mulher, já fosse estranha. Hoje, acho que não é assim, por isso te digo que vai mudando a percepção do feminismo. Eu me considero feminista, não sei se minha escrita é feminista. Penso que muita gente deve considerar que não é feminista o suficiente, eu respeito isso, acredito que outras podem considerar como bastante feminista. É que existem tantos feminismos. Isso de tomar a palavra continua sendo privilégio dos homens, sobretudo essa ideia de tomar a palavra é um tabu para as mulheres. Entre as mulheres da minha geração, havia muitas que podiam fazer alianças com os homens e ser a mulher poeta escolhida – porque sempre havia um grupo de homens e havia uma ou duas mulheres – ou se empenhavam em fazer outra aliança com outras mulheres. O que fizemos em Belleza y felicidad foi mudar um pouco isso, inventar outro circuito com coisas que, para mim, são ferramentas criativas, como o confessional, o pop, o fácil, o bobo, não me importa o que diga o cânone masculino. Essa foi uma opção nos anos 90. Agora, pelo que vejo dos jovens, as coisas são muito mais não-binárias, é como se já não houvesse mais tanto masculino, feminino, homem, mulher. Há um passo mais além, é como uma luta para transcender o gênero. Isso é o feminismo, o antipatriarcal, a questão é o patriarcado, o capitalismo é patriarcal. E uma hora você entende que tudo isso está junto, que o feminismo não é sustentar o capitalismo com mais privilégio para as mulheres, senão tentar mudar todo o sistema. Acredito que isso está mais evidente agora. Nos anos 90, era uma luta das mulheres para ter um lugar. Não me dedico à militância nem à teorização, então talvez não tenha tanta precisão.

 

Mas, sim, me considero totalmente feminista. Fui mãe e criei sozinha o meu filho com a ajuda de familiares. O pai voltou para o Chile. Quando se é mulher você sempre estará num lugar desprivilegiado. Ganhamos menos. Eu não entendo como uma mulher pode não ser feminista. Você acaba tendo menos benefícios que os homens em tudo, no amor, no âmbito pessoal, no econômico ou no cultural. Na Argentina, houve mudanças de cinco anos para cá, e agora é difícil encontrar uma mulher que diga que não é feminista. Acredito que nem as que são de direita digam isso, talvez minha avó [risos], mas pessoas na faixa dos 30 ou 40 não diriam que não são feministas. É mal visto, é como dizer que você é nazista.

 

Eu sempre gostei mais da poesia de mulheres, mesmo antes que houvesse esse movimento feminista mais organizado. Escolhia as poetas mulheres quando tinha que fazer algum trabalho, havia algo de uma sensibilidade com a poesia das mulheres, com a qual sempre me identifiquei mais, me sinto mais confortável. Então, acabei indo mais por esse lado. Acho que esse é o momento das estéticas das mulheres, ou antipatriarcais, porque podem ser não-binaries, trans, o que for, mas há um esgotamento da estética patriarcal. Nesse sentido, sim, me sinto completamente feminista, não me interessa o grande poeta iluminado que vem dizer a verdade. Me parece antiquado, embora goste de alguns poetas, mas acho que se não tiver relação com dar conta desse lugar da fragilidade... Não me interessa essa poesia da força.

 

Em Belleza y felicidad vocês publicaram várias mulheres e havia um vínculo muito intenso com a estética queer, inclusive publicaram a primeira antologia queer da Argentina. Como foi tudo isso?

 

Eu acho que tem a ver com isso que te digo de ter uma intuição estética, porque não havia um pensamento político explícito. Foi uma intuição de que a arte vanguardista, a arte mais interessante, era a poesia queer ou a visão de mundo queer, que inclui as mulheres também. Tinha mais a ver com acreditar nessa estética, acreditar nessa poesia, do que com uma questão política. Eu acho que o interessante da arte, justamente, é poder ver essas potencialidades quando não estão normalizadas, não são explícitas. Por isso sou poeta, e não militante. Agora, talvez, tudo tenha se misturado, mas a poesia tem a ver com essas subjetividades ou esses sentimentos que estão em potência nos textos e que têm a ver com as reuniões, com a festa, com as pessoas, com a rua, mas não com uma ideia de política sistemática. Afinal, era político, mas não pensávamos que fosse, nós duas queríamos publicar o mais novo, o mais interessante, nós achávamos que estava aí, e não na escrita dos homens. Era como um jogo também, como experimentar com a vida, com a sexualidade, com o erotismo, foi divertido.

 

Belleza y felicidad tinha a ver com criar um público, a poesia como meio de sociabilidade, um meio de criar vínculo, um espaço de convivência. Porque em outra sociedade que não seja essa do capitalismo temos que inventar outra cultura. A poesia é como a cultura de ver a nós mesmos e ao mundo de outra maneira. Temos que poder inventar as imagens para uma nova cultura, porque não é assim: um dia acaba o capitalismo e já era, se é que vai acabar, não faço ideia, mas é preciso inventar outra cultura. Então essa ideia do gênio, da poesia muito boa, é uma ideia da cultura antiga, na cultura do futuro não vai haver gênio, vai haver, não sei... Digamos que a poesia é uma mensagem que nos damos com outras imagens que não são as de todos os dias. Escrever poesia é como ir comprar sapatos, no sentido de que qualquer pessoa pode fazer, não só os poetas consagrados. Então, em Belleza y felicidad a ideia era criar um público em que a poesia fosse viver de outra forma, entender a vida de outra maneira. Nesse sentido de que todo mundo pudesse participar da cena, que não fosse algo como os líderes e o público, pelo contrário, a ideia era que todos fôssemos público e produtores, algo assim. Acho que uma das coisas mais interessantes em Belleza y felicidad foi poder criar outra ideia de autor e outra ideia de leitor também. O fato de agora haver tantos fanzines, tantas movimentações, tem a ver com isso.

 

Havia também a ideia de acabar com as fronteiras entre os gêneros artísticos. Havia poesia, havia música, havia artes e acontecia tudo junto sem limites. Outra coisa que havia em Belleza era ocupar o espaço urbano com algo que não fosse a lógica do benefício comercial. Nós duas não ganhávamos dinheiro, porque não havia mercado de arte. Então, era um pouco isso de poder ter um lugar na rua, na cidade, que não é um comércio tradicional, mas um lugar em que acontecem outras coisas. Não era totalmente privado, porque era um lugar que você podia bater na porta e entrar, não era institucional também, porque não era uma universidade ou um museu. Então, era um pouco como jogar com o espaço urbano, mudar a lógica do esperado.


 

E de onde veio o nome “Belleza y felicidad”?


Havia um artista que se chamava Sergio de Loof, era uma figura do underground que tinha uns espaços, fazia desfiles de moda com roupa antiga. Eu era muito amiga dele, saíamos todos os dias quando eu tinha entre 22 e 23 anos. Ele me convidou para fazer uma exposição no seu bar e eu chamei a Fernanda para participar, então tivemos a ideia de fazer uma mostra de quadros de poemas das duas. No catálogo dessa mostra [chamada Fácil], que era em fotocópias, colocamos um agradecimento a Sergio que dizia: King of Beauty, Queen of Happiness, e ficou. Tinha a ver com uma coisa ideal, universal, todo mundo quer beleza e felicidade, e também com reinventar o que se acredita que é a beleza e a felicidade. Pensando como algo político, teria a ver com uma luta positiva e não reativa. Como se o que o movimento operário quisesse fosse beleza e felicidade, que isso não é só coisa da burguesia. Porque beleza e felicidade soam como algo burguês. O que quer um burguês? Ter uma casa linda e ser feliz, beleza e felicidade. Era um pouco a ideia se apropriar dessas palavras e carregá-las de sentido. No fundo, tenho a impressão de que era uma luta por meio do empoderamento e não da reação contrária, ser mais forte se apropriando da beleza e da felicidade que tem o outro. Não pensávamos nisso, mas era a atitude. Sempre nos diziam: “isto é sério ou é irônico?”, e nós dizíamos que não era irônico, que era um desejo, uma utopia.


 

Você escreveu um texto sobre os 20 anos de Belleza y felicidad em que diz que as primeiras matérias que apareceram nos jornais usavam os adjetivos “kitsch” ou “camp” para falar dos objetos baratos que vocês vendiam e que, para o cânone masculino, a precariedade dessa arte não podia ser uma defesa da fragilidade e da incerteza. Se era arte (ou Arte com maiúscula), “tinha que possuir indefectivelmente o ingrediente da ironia ou da certeza”.  Como foi a recepção de Belleza y felicidad pelos críticos e os poetas dessa geração dos anos 90?


Os que nos ajudaram foram os gays, a cultura queer, Gumier Maier, que é curador e havia sido militante do movimento gay nos anos 80. Em geral, os homens hétero cis diziam “ah, isso é uma estupidez”. Um crítico de arte disse que Belleza era uma estupidez irrelevante e depois houve outro que disse que era algo como uma coisa adolescente, consumista, capitalista. Os esquerdomachos diziam: “isso é de direita”. Eles não iam dizer que as mulheres são idiotas, então camuflavam com algo que parecesse político e que fizesse deles os heróis da esquerda. Esta é uma crítica que sempre foi feita à cultura gay, acusada de ser algo superficial, frívolo. Mas eu acredito que a questão das mulheres e das pessoas queers, neste momento, era pegar os adjetivos que colocavam e transformá-los em algo político. Se o frívolo é um problema, vou ser mais frívola ainda. A ideia era jogar um pouco com isso.


No fundo, essa coisa do medo de que não seja irônico é um problema dos homens para se relacionar com o emocional. Por que a produção das mulheres é considerada menor? Porque o emocional é deixado de lado na cultura patriarcal. Porque você, para ser um homem de verdade, deve primeiro não ser gay, transar com várias mulheres e não chorar. É a base do patriarcado, os homens não choram. Eu tenho um filho menino, você vê e pensa: como é que depois se transforma em um homem com essas características? É a sociedade e a cultura. Os meninos quando nascem são iguais às meninas, choram, são sensíveis, têm sentimentos, e há um momento na socialização em que se diz que os homens não choram. Então, os homens vêm e dizem: “isto é irônico”, porque é a única maneira de entender que há aí um desejo emocional. Que não seja irônico, que eu esteja expressando o que acontece comigo, isso os homens e o patriarcado censuram. Os homens não podem expressar alegria, dor, sofrimento, desejo, têm que ser os vencedores. O único momento em que os homens podem se expressar, aqui na Argentina, é no futebol. É o único lugar em que podem chorar, se abraçar. É daí que vem isso do irônico. Eu quero Belleza y felicidad. É como se a razão e a emoção não pudessem estar juntas, não pudessem ser misturadas. E nós éramos duas garotas ambiciosas, queríamos fazer coisas importantes, era uma atitude muito desafiadora. Éramos nós duas que não queríamos a aprovação dos homens, queríamos fazer o que nos desse vontade. No entanto, não queríamos ficar no anonimato, queríamos ser importantes, mas fazendo isso. Essa atitude também desafia a autoridade e faz com que te censurem. Mas as coisas mudaram tanto desde os anos 90 que não sei como isso está agora, acredito que tudo caminha mais para destruir a ideia de gênero, o que eu acho o máximo, me parece muito bom. Porque, por outro lado, a identidade é uma prisão em geral. A identidade, de algum modo, te coloca em um lugar fechado e também é um perigo. Ser mulher implica aceitar várias coisas que nos tiram a liberdade. O livro de Angélica [Um útero é do tamanho de um punho] fala disso o tempo todo. Usar saia, por exemplo, é algo que te tira a liberdade desde pequena, você não pode sair pulando por aí.


 

No evento dos 20 anos de Belleza, você afirmou que “tomar a palavra como mulher era um pouco como autoajuda nos anos 90”. A que você se referia?


Autoajuda no sentido de que era traumático. Sempre havia um trauma no sentido de pertencer a um gênero que milenarmente foi oprimido e não podia falar. É um processo muito lento que tem uns cem anos ou cinquenta. Então é óbvio que esse gesto implica muito sofrimento. Nesse sentido, me referia à autoajuda para dizer que não é o mesmo quando você é um homem de classe média, classe alta, com estudos universitários, você está autorizado pelo mundo a expor suas ideias, é natural. Eu, como sou branca, tenho educação universitária, sou de classe média, tenho muito mais privilégio que uma mulher de outra classe social e de outra raça. Mas tomar a palavra sempre implica esse fato de não haver podido tomar a palavra naturalmente, então este era o sentido da autoajuda, porque eu acredito que uma estética feminista ou feminina, ou do oprimido, do que for, sempre implica dar conta desse fato. Por isso, você não pode ser exatamente igual a um homem hétero/cis falando. Sempre vai haver insegurança, medo, acho que isso também tem que fazer parte do texto, porque senão é como querer imitar essa imagem de algo que não somos.

 


Em sua poesia você está sempre refletindo sobre a literatura, o ato de escrever. Me parece que sua obra traz a ideia de que tudo pode se transformar em um poema, o que acontece aqui, agora, pode ser poético. O que é a poesia para você?


Na realidade, claro, eu penso exatamente como você disse, qualquer coisa pode se transformar em um poema, porque me parece que a poesia é algo que está implícito na linguagem, na vida, no dia a dia. Falar, de alguma maneira, é estar perto da poesia, já é a linguagem poética em si mesma. O que me interessa é como a poesia pode criar outras formas de estar no mundo, mais que a poesia em si. Então, tem a ver com essa ideia de que a poesia é, além de tudo, um trabalho com o tempo, que é permanente ou eterno ou longo e que, de algum modo, essa é uma maneira de reencontrar esta ideia do instantâneo. Eu acho que é preciso pensar no permanente também. Há coisas que consumimos e jogamos fora, e a poesia é algo que criamos e não jogamos, então isso precisa ser uma forma de vida. Precisa ser uma forma de criar sociabilidade, que significa que quando alguém escreve um poema vê a si mesmo de outra maneira, seja o poema bom ou ruim. O que importa é como modificamos a nós mesmos e vemos o mundo de outra forma. Isso faz com que as relações sociais também mudem. Se fôssemos todos poetas, veríamos as coisas de outra maneira. Acho que a poesia vem de uma necessidade de nos modificarmos, por isso qualquer coisa pode ser poesia, porque tem a ver com alcançar essa mudança na prática poética e na leitura. 

 


Seus poemas têm uma dimensão narrativa e seus contos parecem poemas longos. Há uma diferença entre escrever um poema e um conto para você?


Na realidade, é a síntese. Os poemas e os contos nascem da mesma maneira, como se eu visse uma imagem e organizasse em uma frase algo que estava acontecendo. Talvez nos contos eu pense mais no conceito que quero que tenham, mas não são muito narrativos, são mais parecidos com um ensaio, têm relação com uma ideia, e talvez os poemas tenham mais a ver com meus sentimentos. Mas é isso, está tudo misturado. Acontece que, quando se é mais jovem, te dizem: “bom, escreva um livro de contos, porque a poesia não vende, ninguém publica”, se publica mais narrativa. Escrevi um conto que se chama “Monja, la utopía de un mundo sin hombres” é o primeiro conto que escrevi e não sei por que saiu como conto. O que acontece é que o conto é mais publicável.

 

E como é o seu processo de escrita?
 

Em geral, todos os poemas que escrevi são coisas que me aconteceram, que nascem de uma experiência ou de uma ideia. Para mim, a experiência e a ideia caminham juntas. Como algo assim: eu estava na academia e escutei uma canção de rock e pensei que o rock era o capitalismo; o poema tinha a ver com me exercitar, fazer algo com o corpo. Penso que nós, ao longo da vida, vamos dando frases às experiências, comigo acontece isso, dar títulos à vida, algo do tipo, como se os acontecimentos fossem quadros a que você dá títulos. O poema nasce de acontecimentos, não é que me sento e aí vem a imaginação em branco. A poesia nasce da experiência e das leituras, da mistura entre as experiências e as leituras. Porque as leituras são experiências de outras pessoas, no fundo. 

Edição: Clarisse Lyra

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Entrada da"Oficina de poesía". 
 

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Cecilia Pavón é escritora e tradutora argentina. Publicou diversos livros de poesia e contos, os mais recentes são La libertad de los bares (Mansalva, 2020) e Todos los cuadros que tiré (Eterna cadencia, 2020). É editora da Microcentro

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Eduarda Rocha é pesquisadora e tradutora. Está concluindo o Doutorado em Estudos Literários na Ufal. Em sua tese, analisa a obra das poetas Angélica Freitas, Cecilia Pavón e Fernanda Laguna. Co-edita a revista Felisberta.