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Poemas

Martim Moreau Maita

Desenhos de 

Isabella BeneducI

 

Você ri

Alguém que nunca ouviu uma risada

e ouve a Sua

 

pode deduzir –

É assim que sonham as ratazanas

ou que um gato toca escaleta

 

Alguém que no meio interestelar

ouve Glenn Gould tocando

Prelúdio e Fuga em Dó Maior

 

Pela primeira vez sabe o que são mãos

E para que servem

Mesmo que seja uma Sardinha

 

Uma Sardinha não tem mãos e não entende

O conceito de mãos,

 

se você conta

o tempo em dedos

 

que faltam, eu me chamo Bach e vou morrer recém-nascido,

Você que Não tem mãos e é uma Sardinha viveu uma era geológica

 

Veja

Você deixa um rastro prateado que não tem duração / eu deixo um Cravo]

Bem Temperado

 

Você ri, Sua risada tem o hábito estranho de

Estar no presente não importa quando; nisso

tem muito de Sardinha

 

Cem dentes atrás, Sua risada soa

ao apito de uma fábrica de panelas de arroz

Japonesas, hoje

 

Eu que já ouvi risadas

Não deixo de pensar num gato tocando escaleta

 

Ninguém deduz Mãos quando pensa

Num gato tocando escaleta

No máximo Patinhas.
 



antes tinha dúvidas se Sua risada é um fole 

de forja ou uma sanfona disfuncional 

 

então trocaram a sua dentadura por 

uma mais reluzente – e você detestou e disse 

 

se for pra cair é melhor ir caindo 

sem arte 

 

e lançou pelos ares pela primeira vez 

um cometa nos céus de Hamsterdão 

 

frouxa mas não vazia 

conforme vai adiante e atrás 

 

Sua risada 

é Tao.


 

duas mãos

 

são suficientes para uma série de coisas

você pode fazer algo e dar o nome de Nado

 

Sincronizado apenas usando uma e outra

aquela tuba que você tanto gosta um

 

entalhe e descamar Garoupas – você pode fazer

com uma e pode ser algo maravilhoso

 

mas tente com duas não

necessariamente pegadas a um mesmo torso –

 

uma Lira toca-se com as duas mãos e uma

Lira tosca num bolo tosco feita com maçapão

 

você pode tocá-la também – e se fizer isso

vai ser uma Bagunça, então faça com as duas de uma vez

 

quase nada de importante requer uma mão

mais uma mão, que dirá duas

 

uma mão desajeitada é infame, duas

é uma Comédia e três, não tente com três

 

Você não tem mãos (não mais) então eu faço um

Joinha com a esquerda e respondo com outro

 

Joinha com a direita – ou um sinal qualquer
que queira dizer que está tudo bem por aqui.

 



 

Poxa, garota zumbi


Não tem um dia

Que eu não olhe para as mãos pretas do borracheiro

E não pense em como você acordava à noite

Fingindo-se de viva – Explico:

 

Suas mãos também pareciam querer

Encher de ar todos os pneus que viam

Pela frente naquelas noites em que você

Acordava

 

Balbuciando coisas que dizem os vivos

– ninguém diz essas coisas sem sujar as mãos

Ninguém, você dizia e movia as mãos como

Marcel Marceau no Municipal em 97

 

Então pela manhã depois de um café

Você tinha um temperamento terrível

Antes de tomar um café quente às

Vezes era uma questão de um braço

 

A mais ou a menos – quantos braços

Você não me arrancou garota zumbi

Naquelas manhãs com a ressaca de

De repente ter fôlego e mãos

E saber o que fazer com elas? 

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Martim Moreau Maita nasceu em São Paulo em 1990, cozinha e escreve.

mmoreaumaita@gmail.com