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eclética, plural e de quarentena

Pensar a pandemia:
Um diálogo a partir da fragilidade e da incerteza

Virginia Cano e
Tamara Tenembaum

Entrevista por Marta Dillon
Tradução por Luiza Mançano e Mariana Ruggieri 

Texto original publicado no jornal argentino Página 12 em 10 de abril de 2020.

A proposta era fazer um zoom. Mas Virginia Cano – doutora em filosofia, lésbica e escritora – e Tamara Tenembaum – licenciada em filosofia, jornalista e escritora – optaram por recuperar a relação epistolar, ainda que eletrônica, para pensar em meio a esta tormenta. Inventaremos outro mundo? Quem seremos quando isto terminar? São algumas das perguntas que permanecem no ar para que cada uma possa somar suas linhas.

Não houve intervenções no diálogo a seguir, exceto pela proposta de inaugurar a conversa estabelecendo quatro eixos que giram em torno de preocupações compartilhadas pelos feminismos, ainda que não só por eles, e sobre a possibilidade de vislumbrar futuros ou imaginá-los durante a imobilidade da quarentena, em que tudo parece obediência, controle e instruções detalhadas para ocupar um tempo que, longe de estar livre ou morto, como se costuma dizer, está preenchido por tarefas de cuidado, de acompanhamento de alunos, de ansiedade, insônia e incertezas. Tanto Virginia quanto Tamara são jovens – a primeira se aproxima dos 40, a segunda, dos 30 –, se formaram na mesma disciplina – a filosofia –, no feminismo e em uma voz pública que, de diversos modos, elas provocam em cada uma de suas intervenções. Entre ambas é construído um diálogo a partir da inquietação que, no entanto, pode ser lido como a contemplação de uma conversa íntima, como acontece nesses dias em que as janelas e as varandas estão tão habitadas que as vozes vão chegando e quebrando o isolamento, produzindo uma sensação outra sobre estar em casa – essa casa comum sobre a qual se fantasia às vezes, na qual as palavras têm espaço e os silêncios são confortáveis. Entrem, então, nesta leitura não obrigatória de quarentena.

O primeiro eixo que proponho para provocar o debate é meu próprio incômodo diante da proeminência do discurso sanitarista. Por que mesmo em uma crise sanitária é preciso apelar às metáforas de guerra sempre que uma doença aparece ou quando se cruza a porta de um hospital? Não é a pressão por desinfetar tudo uma carga extra para nós que fomos socializadas como mulheres? Seriam os médicos ou médicas os únicos habilitados a falar do que está acontecendo?

Tamara Tenenbaum: Antes de mais nada, devo dizer que me incomoda muito falar sobre tudo isso. Acredito que há algo nesse incômodo que é razoável: tudo nestes dias parece muito importante, ganha outro peso. Por isso não compartilho nada, não divulgo informações, tampouco as discuto. Me apego à posição de boa cidadã: faço tudo o que o Estado me pede, nem mais nem menos. Não penso, acato. Não sei se o Estado sempre tem razão, mas não consigo encampar a discussão. Mas obviamente compreendo os riscos dessa postura e tudo o que ela acarreta: me pergunto quais seriam os limites, o famoso “mas se o Estado te pedisse para pular da janela, você pularia?”. E não, não sei onde está essa linha, mas percebo, sim, os subprodutos desse lugar enunciativo, o prazer do bom cidadão, que assume para si a tarefa de vigilância e denúncia e diz: “vi o vizinho descer três vezes para passear com o cachorro, vi pela câmera o vizinho do sétimo andar ir ao supermercado dois dias seguidos”. Esse prazer da correção é perigoso, mas ao mesmo tempo é difícil questioná-lo quando tudo indica que a forma de sair disso é justamente a coordenação coletiva. Não é um momento para a dissidência mas, ao mesmo tempo, é perigoso que não seja. E é perigoso que não se possa falar. Hoje dá medo até de perguntar quanto vai durar a quarentena, porque parece que só essa pergunta já seria um questionamento da sagrada vontade estatal. Ao mesmo tempo, compreendo o desespero dxs médicxs quando indagamos se o discurso da coesão social parece ser justamente o que mais necessitamos hoje para nos cuidar entre todxs. É um paradoxo tremendo: os momentos em que mais precisamos da força do Estado para coordenar desejos, corpos e vontades, são também os momentos em que precisamos estar mais atentas para que essa coesão não se torne uma repressão policial (o que já está acontecendo), uma vigilância cidadã mútua, um discurso de limpeza que comece a enxergar os outros em termos de ameaça, e não mais de cuidado. Comento entre pessoas conhecidas sobre levar comida a idosxs no meu bairro e me dizem “pense bem”, como se fosse melhor matá-lxs de fome do que furar a quarentena: para que raios estamos fazendo a maldita quarentena se você quer que xs idosxs morram de fome? Não podemos esquecer que o isolamento é para cuidar dxs demais também, não só a nós mesmxs. Não acho que seja falta de comunidade, porque senão parece que “comunidade” só significa coisas boas, e não acho que seja assim. A comunidade é também vigilância, desconfiança e controle; por isso, penso que é preciso conversar, no sentido mais forte da palavra, pensar com outrxs neste momento em que estar presente fisicamente não é possível, para não fazer prevalecer essa precarização de tudo acima do cuidado. São dias difíceis para pensar nas intromissões do Estado. Por outro lado, às vezes tenho delírios muito xenofeministas: já forneci meus dados ao Instagram só para publicar selfies ridículas, então por que não fornecer todo o meu perfil genético ao Estado? Se isso for permitir que eu possa sair à rua, acho que o entregaria.

Virginia Cano: Ando pelos mesmos lugares de incômodo e incerteza que você, Tamara. Mas acredito que é um bom lugar a partir do qual podemos pensar. Hölderlin escreveu em um poema que “onde há perigo, cresce também o que salva”. Em alguns momentos, sinto que estamos um pouco nisso: diante da riqueza do risco que nos empurra a pensar estratégias coletivas de salvação. Se tem algo interessante no que está acontecendo é que se colocou na mesa nossa dimensão inextricavelmente comunitária e interdependente. Como disse o presidente [Alberto Fernández], “ninguém se salva sozinho”. E aí reside uma aposta política indeclinável diante da imunizadora pedagogia liberal contemporânea. O fato de que possamos contar com um sistema público de saúde (frágil, mas existente) e que exista um sentido estendido do acesso à saúde como um direito humano nos distancia de muitas das reflexões e dos contextos do norte e nos outorga um sentido de comunidade e de Estado que temos de defender e problematizar ao mesmo tempo, hoje e sempre. Mas aqui poderíamos inverter a frase do poeta e dizer que “onde há o que nos salva, cresce também o perigo”. O discurso da saúde pública, embora coloque no centro da questão essa dimensão comunitária que devemos abraçar, alimenta nossos sonhos imunitários e nossos desejos de controle. Como a Tamara disse, basta ver como rapidamente passamos a nos vigiar entre nós, a temer a presença sempre incontrolável dos demais, assim como a facilidade com que este estado de exceção dá lugar aos já habituais abusos policiais que, como sabemos, sempre se dão com maior brutalidade contra as populações mais vulneráveis.

Pessoalmente, acredito que é preciso evitar as conclusões rápidas ou polarizadas e transitar o incômodo de estar em água revoltas, nas quais convivem o perigo e a salvação, a agitação da força comunitária e a efervescência do impulso imunitário, o desejo de ajudar xs outrxs e o individualismo fervoroso. Habitar a incerteza deste acontecimento é um desafio não só para muitxs filósofxs apaixonadxs pela “verdade”, mas também para a visão economicista que domina nossa cultura contemporânea, que fez do cálculo e da previsão uma ferramenta de controle e produção hierarquizada da vida. Renunciar completamente ao cálculo é impossível, mas revisar suas variáveis e prioridades é também uma necessidade de primeira ordem.

O “vírus” faz circular velhas e novas ficções, muitas das quais entram em conflito. Ele tem a potência de nos fazer lembrar da nossa sempre precária condição social, mas também pode nos fazer acreditar que somos todxs iguais diante de uma ameaça que não recai da mesma forma sobre todxs. Ele fortalece, por um lado, o discurso da solidariedade e do bem comum, ao mesmo tempo que acende o velho sonho da soberania estatal e a necessidade de fechar as fronteiras. Sejamos, então, cuidadosxs com essa faca de dois gumes e os desafios que ela comporta.

O isolamento social obrigatório traz consigo algo que se faz cada vez mais presente e que esteve colocado desde o primeiro momento, quando se falou em um “inimigo invisível” sem que se percebesse que esse inimigo está encarnado em corpos: o medo dxs outrxs. O que acontece com as práticas comunitárias nesse contexto? E também, certamente, o que a clausura doméstica implica enquanto um retrocesso em relação ao que os feminismos vêm discutindo publicamente: a violência machista dentro das casas, a internalização do controle social e o apagamento, nos discursos hegemônicos, das classes mais pobres e dos saberes que elas acumulam para enfrentar as crises? Como nos colocamos diante do punitivismo social e de uma presença do Estado que, ainda que seja apresentada nos termos do cuidado, se torna repressora em muitos lugares?

TT:
Aqui também sou pura neurose. Vejo tudo o que você diz, Marta: é difícil pensar a comunidade quando estamos todxs sozinhxs em casa. Por outro lado, fico impressionada, positivamente, com o nível de cumprimento da quarentena, pelo menos no bairro de classe média pelo qual circulo. É interessante porque eu pensava que o discurso sobre “os grupos de risco” faria com que xs jovens não quisessem sacrificar suas festas e suas vidas “produtivas” para salvar as pessoas supostamente “improdutivas”, mas me alegro em comprovar que, apesar de tudo – e por isso acredito também que certo nível de deslocamento policial não é totalmente necessário – vivemos em uma sociedade onde a produtividade está longe de se situar no centro da vida e dos valores. Ao mesmo tempo, outro paradoxo: os laços sociais não são puros e descontaminados das relações de poder, e aí vemos tantas mulheres enclausuradas com seus agressores, tantas crianças enclausuradas com seus abusadores. É como se tivéssemos retrocedido cinquenta anos e pensássemos que o perigo é o que nos espreita do lado de fora, e que do lado de dentro não acontece nada. Os feminicídios – a única indústria que não descansa – continuam se acumulando, e nós, feministas, temos que lidar com o desprezo de sempre: não é importante. As buscas por mulheres são suspensas na quarentena.

Penso que o apagamento das quarentenas dxs pobres eclodiu na semana passada, quando vimos as aglomerações de pessoas que, em alguns casos, esperavam desde as duas da manhã para sacar sua aposentadoria ou seu benefício porque os bancos estavam fechados durante toda a quarentena. À luz do desdém absoluto que isso evidenciou – do qual o principal responsável é o Estado –, ter falado de “idiotas” que não cumpriam a quarentena é quase um cinismo. Quantas das pessoas que descumpriram a quarentena foram pedir dinheiro a alguém, saíram a caminhar para ver se conseguiam algum bico ou foram levar comida para um amigo? Este último caso é textual: o jornalista Fernando Soriano publicou no Infobae uma matéria na qual contava que dois garotos, que ficaram famosos por um vídeo em que policiais os faziam caminhar de joelhos por descumprirem a quarentena, estavam indo levar comida para um amigo que não tinha nem um peso. O tom imperativo daqueles que, de suas piscinas,  diziam “fique em casa” sempre me pareceu cínico e violento, mas dessa gente não espero nada; do Estado, sim, e acredito que, de fato, desde o que aconteceu com os bancos, tanto o governo quanto o jornalismo têm sido mais cuidadosos ao falar daqueles que descumprem a quarentena. Acho que é importante que, a partir dos ativismos, possamos falar sobre essas coisas, também para que a quarentena seja possível de ser vivida e possa sustentar tudo o que faz falta.

Sobre a pressão para fazer de tudo: andei conversando com amigas que têm filhxs. Estão mandando toneladas de lições de casa para as crianças pelos dias de aula perdidos. Em muitos dos trabalhos que tenho, existe uma obsessão por continuar e continuar: existe quase uma compulsão para cobrir de trabalho e tarefas uma situação de exceção, uma espécie de “como se”. Acho que é preciso defender a necessidade de se cuidar acima de tudo. Esses dias, estava pensando no livro de Derek Jarman, Modern Nature. São os diários que escreveu quando, depois de seu diagnóstico de HIV no final dos 80, decidiu comprar um terreninho e se dedicar às plantas. Esse livro sacudiu por completo minha lista de tarefas produtivas e reprodutivas: para Jarman, fazer um filme não é necessariamente mais interessante, atrativo ou moderno do que cuidar de um jardim. Eu já tinha o marxismo feminista organizado na cabeça, que o trabalho reprodutivo também é trabalho, que também tem valor econômico porque é imprescindível para o trabalho produtivo, mas isso me fez refletir sobre o valor absoluto, não derivado, dessas tarefas de cuidado, sobre se finalmente podemos parar o mundo e ficar só com o imprescindível, que é isso: cozinhar, tomar banho, cuidar de nossxs doentes (e eu defendo a palavra doença, sem eufemismos: o que há de mal em estar doente?).

VC: Ficar em casa é, apesar do mal-estar implícito, um privilégio. Estar consciente disso é importantíssimo, e nos dá a possibilidade de criar uma responsabilidade ética e política mínima. Ela nos chama a responder ao pedido de diminuição da circulação quando podemos, compreendendo que esta não pode ser a regra para todxs. Por isso, como reconhece este governo, o isolamento doméstico não é possível para toda a população, nem pode ser pensado como a única estratégia de cuidado coletivo. Como aponta Tamara, basta ver o que aconteceu na semana passada com xs aposentadxs e o pagamento dos benefícios e auxílios, ou reparar em toda essa economia informal que é interrompida sem contenção imediata e que coloca em xeque a renda diária e vital de uma imensa maioria da população.


Além disso, o isolamento social, para aquelxs que é possível, acarreta seus próprios infernos. O aumento da violência de gênero e intrafamiliar, a ininterrupção dos trans/feminicídios, a sempre insuportável invisibilização da distribuição sexo-genérica e racial do trabalho doméstico e de cuidados que os (trans)feminismos e os movimentos antirracistas vêm denunciando historicamente, a estranha revolução restauradora da unidade doméstica como horizonte da salvação, são alguns dos riscos (imunitários e higienistas) que temos que seguir combatendo. O hetero-cis-capitalismo é hábil e tem a capacidade de se adaptar e tirar proveito de cada novo cenário, e a atual cena do Covid-19 não é excepcional nesse sentido. Por isso, acredito, com vocês, que é preciso continuar realizando esse trabalho que estamos realizando: ponderar e lidar com os riscos e as injustiças que ocorrem no espaço doméstico e familiar, ao mesmo tempo que temos de contemplar as desigualdades sociais que determinam que algumas de nós possamos manter o isolamento social e outrxs não.

Por outro lado, e também estou de acordo com Tamara, é preciso dar um tempo com o discurso da produtividade e com isso de seguir fazendo coisas “como se nada estivesse acontecendo”. Uma das coisas mais interessantes das políticas (discursivas e econômicas) do governo [argentino] é, justamente, hierarquizar o valor da vida de todxs acima do valor da economia (sem que isso implique a ausência de políticas estatais nesse terreno). Romper com a ideia de que as vidas produtivas são as que (mais) importam não é apenas uma tarefa do Estado, é também um trabalho que temos de realizar em nossas práticas cotidianas. Sobrecarregar de tarefas e obrigações as crianças, pais e mães, e xs trabalhadorxs que (supostamente) podem seguir com seus trabalhos online, não contribui apenas para aumentar a ansiedade atual (não reconhecendo a condição desestabilizadora da conjuntura), também gera uma maneira de pensar o valor das vidas que precisa ser revista. Às vezes, para retomar a metáfora da Tamara, em vez de seguir fazendo a roda girar, é mais importante pará-la, suspendê-la, e inclusive desviá-la. Aí sim está uma oportunidade de transformação interessante, ainda que escorregadia.

Podemos aproveitar esse tempo para desenhar futuros, para inventar outros mundos habitáveis? Vocês acreditam, como escreveu outro filósofo, que estamos diante do fim do capitalismo? De quais vidas estamos cuidando agora mesmo? Temos que sair melhores de tudo isso? É possível?

TT: Me nego a correr, como todos os caras, para anunciar o fim do capitalismo e o retorno da história: acredito que uma das grandes forças do feminismo é se animar na incerteza e na escuta, e não inventar diagnósticos baseados em nossa própria ansiedade por acontecimentos. Então, não sei o que vai acontecer. Me interessa muito essa pergunta pela vida da qual estamos cuidando. Pensei nisso esses dias, nos momentos mais pessimistas, quando imaginei um mundo em que a quarentena não acaba nunca e simplesmente nos acostumamos a um mundo sem sexo, sem abraços, sem obras de teatro – me perdoem o capricho burguês: gosto muito de teatro –, sem comidas compartilhadas com dedos lambidos contra todo o código bromatológico. Eu hoje me resguardo, mas obviamente essa vida não seria vida alguma. Tampouco é vida a das pessoas que hoje precisam escolher se se expõem a contatos em um albergue ou se dormem na rua. Não sei o que precisamos fazer ao sair disso e não sei o que é possível. Acredito que há muita pressa para pensar o futuro, e eu com o presente já tenho bastante em que pensar.

VC: Não acredito que tenhamos que sair todxs melhores nem transformadxs dessa situação, mas penso que seria desejável suspender algumas das nossas certezas, desestabilizar algumas de nossas valorações habituais. Por outro lado, também penso que o desafio atual é não apenas se esquivar do impulso futurológico de muitxs filósofxs, mas também evitar cair no mais cínico pessimismo (que anuncia o fim do mundo) ou em um inocente otimismo (que vaticina o fim do hetero-cis-capitalismo colonialista). Talvez o desafio seja conter o desejo de previsões e enfrentar a difícil tarefa de tentar seguir vivendo em um mundo que produziu tanta injustiça, tanto dano a nós e a vidas não-humanas. É um desafio triste, mas é inevitável enfrentarmos as consequências de um capitalismo que fez da criação industrial de animais, da agroindústria, do desmatamento e da produtividade que acumula riquezas para alguns poucxs às custas do empobrecimento da maior parte da população (e de tudo que é vivo) o nosso modo de vida.

Faz tempo já que me sinto parte daquelxs que desconfiam dos discursos revolucionários que fazem do futuro a promessa do novo começo. Me sinto mais próxima dessa frase de Lohana Berkins que diz que “o tempo da revolução é agora”. A possibilidade de mudança está aqui, no presente, que é tudo, menos linear e homogêneo, e em que o egoísmo mais extremo convive com a potência transformadora de nossas articulações comunitárias. Esse é o momento para continuar apostando em nosso desejo de viver em outro mundo, menos injusto, menos excludente; de recuperar tudo o que temos aprendido e as estratégias coletivas de que temos lançado mão. Nossos movimentos sociais plurais têm uma longa história e um importante acervo de memória coletiva na luta por um mundo melhor. Lembrar deles é fundamental, não só para não nos sentirmos sozinhxs e nem começando do zero, mas também para conjurar a ficção de que é “o vírus” quem tem a potência de reinvenção. Quem sabe? Talvez agora mesmo – e para além de qualquer garantia –, estejamos avivando a força desses mundos outros que vínhamos ensaiando, praticando, imaginando e entesourando; esses mundos que nunca estão a salvo, mas que guardam a potência sempre esquiva de um-outro-modo, de uma outra-vida-em-comum.

A sexualidade de repente se converteu no grande tema da quarentena. Há novas instruções para o “sexo seguro” publicadas pelo Estado, há sexólogos e sexólogas recomendando não fazer sexo nem com quem partilhamos a casa, há várias instruções para o sexo virtual, a masturbação, o uso de sites de encontros. Me pergunto sobre as implicações dessas normativas estatais e essa ansiedade social por “suprir” o sexo que parece que todxs fazemos todos os dias – ao fim e ao cabo se passaram 20 dias, embora pareça muito mais. Por outro lado, como vamos voltar a desfrutar do intercâmbio de baba, lágrimas e fluidos que integra a sexualidade?

VC: Para mim, uma das coisas que mais me preocupam é: como vamos retornar à bagunça envolvida no corpo a corpo? E não me refiro apenas à possibilidade de fazer sexo com quem e quando quisermos, mas também aos termos mais amplos das múltiplas possibilidades que o encontro entre corpos oferece. Quais barreiras corporais – e não apenas nacionais – teremos que derrubar para voltar a aproveitar, sem medo, sem preocupação e sem a sensação de que não estamos nos cuidando, para recuperar o prazer que implica o roçar das peles, isso que acontece quando estamos peladxs com outrx/s, mas também no carinho com amigxs, no aperto de mãos com x moçx da feira, na proximidade dos corpos que se juntam em uma festa, no mercado ou em uma manifestação? Quais serão as marcas sensíveis que essa política corporal do isolamento e da imunidade deixará em nossos corpos e em nossos afetos? Aqui me entrego a certa esperança frágil na sabedoria carregada pela nossa pele, porque talvez seja nela, nesse limiar que é sempre limite e abertura, na sua porosidade vital, onde possamos encontrar uma chave para pensar a potência dos corpos. Porque é ali, na urgência do contato com o/s outro/s (humanos e não-humanos, orgânicos e inorgânicos), onde se encontra nossa salvação e nossa melhor trincheira.

Não sei o que está acontecendo com vocês, meninas, mas do que eu mais sinto falta é dos abraços da minhas pessoas queridas, o ventinho fresco de um passeio na rua pela noite, o sol esquentando o meu rosto enquanto deito na grama, o toque muitas vezes involuntário e precário da circulação cotidiana, o suor depois de uma partida de futebol, o cheiro de café do boteco da esquina, enfim, esse sem-fim de possibilidades e de pequenos refúgios que apenas se dão quando o corpo está um pouco mais aberto, não tão assustado nem ansioso pela imunização, ali onde ele nos lembra disso que somos, irremediavelmente: vida-em-comum, abertura contaminante, enfim, sempre mais do que nós mesmxs.

TT: Mais do que nós mesmxs: eu também sinto saudades disso, Vir. Sinto falta dxs amigxs, mas também dessa comunhão sem borda com gente desconhecida, característica da vida em uma cidade grande. Estive relendo esses dias The Odd Woman and the City, um ensaio-memória de Vivian Gornick que é como o canto à solidão de ser uma mulher solteira em uma grande cidade, esse estar só, mas sempre em contato com outra multidão de gente; com todas as crueldades e desigualdades que as cidades hospedam, é assim também que eu me sinto. Assim como Gornick, cresci em um bairro judeu relativamente insular e descobri já grande o tamanho da minha cidade, Buenos Aires, e os perigos e as possibilidades infinitas que ela oferecia. Pensei muito nela e nesse livro porque esses dias senti isso: não sinto falta só dxs amigxs, sinto falta das pessoas que não conheço, sinto falta da música maravilhosa do agito, até de ir resolver burocracia no centro sinto falta. Não posso nem quero imaginar uma vida sem isso. Me contaram que nos países de primeiro mundo subiram muito as vendas de brinquedos sexuais, no Canadá mais de 100%. Não tenho nada contra, claro, mas estou mais alinhada ao que diz Marta: mais do que pensar em como suprir aquilo que não tenho, me interessa saborear o que tenho, encontrar as palavras para escrever isso que acontece com o corpo quando não se pode sair, isso que acontece com a voz, isso que sinto quando saio para comprar algo e o dia não poderia estar mais bonito, mas tudo parece morto. Hoje aconteceu uma coisa boba, indo comprar comida; uma moça vestida de médica, claramente fazendo uma visita, me pediu ajuda para achar uma rua. Tinha visto ela tentar antes com uma senhora que olhou para ela quase com nojo. Não é que eu queira ser justiceira nem nada disso, foi puro egoísmo: faz tanto tempo que não saio dessas três quadras, que poder contar para alguém sobre as ruas do bairro, diagramá-las, poder mostrar a uma desconhecida o que sei das minhas ruas devolveu algo ao meu corpo. Não é como transar com um desconhecido, mas teve a sua graça. 

Virginia Cano, argentina, é doutora em filosofia, lésbica e escritora. 

Tamara Tenembaum, argentina, é licenciada em filosofia, jornalista e escritora. 

Marta Dillon é escritora, referência feminista e editora do suplemento feminista Las 12, do jornal argentina Página12. Publicou, entre outros livros, a autobiografia Aparecida (Sudamerica, 2015). 

Luiza Mançano é tradutora e pesquisadora na área de literatura hispano-americana, com
interesse em crítica feminista.

Mariana Ruggieri é editora e tradutora nas Edições Jabuticaba, além de pesquisadora na
Unicamp, onde também dá aulas.