Paradoxos das letras na

pós-graduação 

Antonio Kerstenetzky

Existe um certo modo de viver em que grande parte do contato com o mundo se dá através do texto. Viver assim significa só sentir determinada quantidade de sensações durante o dia; sensações resumidas, em grande parte, à província da visão. Mais especificamente, da visão de mais ou menos o mesmo ‘objeto’– um fundo branco com milhares de linhas de pequenos símbolos pretos.

 

No entanto, pergunte a qualquer um de nós, que vivemos assim, e diremos que isso é uma simplificação grosseira. Cada combinação específica de letras, palavras e frases contém em si um mundo irreplicável. A visão está sendo mobilizada, é claro, mas o que estamos usando de fato é outro sentido, para o qual ela é simples filtro. Como resultado frequente dessa operação, prazeres ‘puros’ são atingidos – os que temos sem culpa, dando atenção a nós mesmos e em relação íntima com os outros. Mesmo se a leitura pode ser uma atividade sofrida, cada pequeno ganho de significado é uma libertação.  

 

Hoje em dia, tentar cavar uma carreira respeitando esse modo de vida significa se submeter a uma pressão desconfortável: ser apenas leitor não dá dinheiro, e em dado momento somos forçados a tornarmo-nos autores. Temos de exercitar uma voz que aprendemos velhos e que não nos ocorre por simples inspiração, como muitas pessoas nos querem fazer crer.

 

O registro em que se é convidado a começar a escrever, enquanto pós-graduando, é especialmente desafiador. A escrita acadêmica determina constante referência à tradição na qual determinado texto tem de se inscrever, e como resultado nossos trabalhos em grande parte são compostos de colchas de retalhos.

 

A obrigação de escrever na pós-graduação introduz nova relação com a leitura, e esse mandato repentino pode ser perturbador. Os textos perdem a sua inocência: o prazer diletante de ler sem obrigação, sem a necessidade de se estar sempre atento às possíveis implicações do que se está lendo sobre o próprio trabalho, sem ter que seguir um programa de leitura com alguma coerência.

 

O exercício tem seus prazeres, é claro – pequenas descobertas e insights, planos de interpretação ambiciosos, além de atração verdadeira pelo objeto de estudo escolhido. Mesmo assim, o prazer ‘puro’, que estabeleceu a relação lúdica e fundamentadora com as letras, ganha nesse processo papel secundário, submetido pelos prazos e pelas exigências (imaginadas ou não) de pares, orientadores, bancas, pareceristas, leitores potenciais, dentre a multidão de pessoas que pode vir a nos ler, se tudo der certo.

 

Tornar-se escritor pós-graduando significa também alimentar em si duas forças contrárias: a ambição e a autocrítica. Em alguma medida, ambas podem conduzir à criação de um bom texto. A ambição nos leva a buscar associações que representem insights não só para nós, mas especialmente para o leitor. Escrever é, afinal, tentar determinar o que o outro vai ler, reivindicar um pedaço de sua vida. A autocrítica nos mantém com os pés no chão: antes de publicar, há que se ter algum nível de segurança de que aquele insight não é óbvio.

 

A escrita na pós-graduação, no entanto, é realizada em condições que podem deturpar essas duas forças. Nosso leitor mais provável é um avaliador; se dermos sorte, seremos lidos de modo utilitário por alguém que também está escrevendo sobre o mesmo assunto. Para se ter sucesso nesse ambiente, o foco da ambição pode acabar sendo alterado, de entreter, provocar ou emocionar o leitor para se conformar ao que imaginamos ser as exigências de um trabalho bem feito. A autocrítica frequentemente se converte na ‘síndrome do impostor’, força imobilizadora que transforma a percepção de nossa dificuldade em nos adequarmos às exigências acadêmicas na sensação de que não temos a capacidade de alcançá-las.

 

Essa deturpação é uma armadilha que armamos para nós mesmos. E um modo de evitá-la é não perder de vista o prazer fundador da relação com as letras. A questão passa, creio, por perceber que não há nas humanidades como separar totalmente o trabalho da vida. Tudo que lemos molda nossa visão de mundo, que será expressada no que produzirmos, mesmo se tentarmos nos conformar. A leitura interessada pode, no máximo, direcionar um impulso que existia antes da entrada na pós, mas nunca a suplantar.

 

No caso da escrita, poucos são os sortudos para quem a possibilidade do encontro com o outro é incentivo suficiente. A maior parte de nós ainda depende de outro tipo de empurrão. Toca, em um certo sentido, encontrar um que funcione. Uma possibilidade é buscar escrever com o fígado. Como me sugeriu Pedro Motta, um dos maiores impulsos históricos à escrita é o polêmico, o de escrever para destruir o outro. Como nos jogos, o destruir é puramente simbólico, de modo que não se rouba do outro a capacidade de tentar fazer o mesmo.

 

Há também os vaidosos, que escrevem para se mostrar ou se tornar famosos – David Hume, autor sempre sincero, incluiu-se nessa categoria em sua pequena autobiografia. Não há nada de errado nesse impulso; mas ele é certamente frágil, por depender muito do olhar do Outro para se sustentar.

 

Uma possibilidade mais pacífica e segura é a sugerida por esta nossa Capivara. Escrever para uma revista que não vai avançar em nada nossas ambições acadêmicas mais mesquinhas é certamente um tipo de empurrão que respeita inteiramente o prazer da leitura amadora, e que busca incluir a escrita em seu domínio. ∎ 

Edição: Luiz Eduardo Freitas e Daniel Mano

Antonio Lessa Kerstenetzky é formado em História pela UFF e mestrando em Filosofia pela USP. Foi editor da falecida Folha do Gragoatá (2012-2016) e é editor da Capivara. 

antoniokersten@gmail.com