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eclética, plural e de quarentena

As obras clássicas
não precisam de nós

Pedro Barbieri 

 

Giovanni agora pensava nas sentinelas que a poucos metros dele caminhavam como autômatos de um lado para o outro, sem um instante de pausa. Dezenas e dezenas eram os homens despertos, enquanto ele jazia na cama, enquanto tudo parecia imerso no sono. “Dezenas e dezenas”, pensava Drogo. Mas para quem, para quê? O formalismo militar, naquele forte, parecia ter criado uma insana obra de arte. Centenas de homens guardando um desfiladeiro por onde ninguém passaria.
 

Dino Buzzati, O deserto dos tártaros

 

Quero propor aqui uma ideia simples. As obras clássicas não precisam de nós. Talvez nós precisemos delas. Mas ainda não sabemos em que sentido.

Da mesma forma, temos que considerar a possibilidade de que a sociedade também necessite dessas obras, ainda que ela esteja alheada disso. Esse ambiente é compreensível. Afinal, nós, professores e alunos, damos somente explicações esquivas ou protocolares sobre sua necessidade. Justificamos a obra pela sua “relevância histórica”, por seu lugar dentro de determinada linhagem poética ou filosófica; ou seja, a tradição pela tradição. Defendemos a importância de determinada obra como sendo a base remota de trabalhos mais recentes, de saberes mais recentes; ou seja, praticamos a historiografia das ideias. Para quê? De um lado, alegamos quão fundamental é ler os clássicos para entender os produtos culturais modernos e contemporâneos; de outro, lemos a obra para melhor lermos obra. O nome disso é desnorteamento. São clichês insuficientes que tornam as obras reféns de uma imobilidade flagrante. A sociedade talvez não veja isso acontecendo nos bastidores acadêmicos, mas interage com os seus efeitos na forma de desinteresse. Trata-se de um divórcio entre oferta e demanda de que, sem sabermos, nós mesmos, estudiosos, participamos. Por alguns ângulos, a Academia é uma promessa não cumprida. Isso ocorre, em parte, devido à insinceridade do nosso posicionamento ou mesmo em decorrência de nossa própria desorientação.

Porém, para deixar mais claro o que quero dizer, é necessário darmos um passo para trás. Devemos nos localizar. Vivemos uma época de cortes de bolsas de estudo; de abreviação do tempo para pesquisa se comparado aos mestrados e doutorados das gerações passadas; da exigência produtivista que subordina a qualidade da construção de conhecimento; da equivalência entre estudo e hobby, pesquisadores e ociosos. O nosso contexto atual é de amplo desapreço às humanidades, à literatura, à filosofia, à arte e a outros tantos elementos da cultura em geral. Em grande parte, a sociedade contemporânea busca apenas o que podemos chamar de doutrina de reforço – um expediente por vezes involuntário, diga-se de passagem. O fenômeno é conhecido: deixamos que as influências externas apenas confirmem o que já achamos que somos, não que nos apresentem também a novas possibilidades, do mundo e de nós mesmos. Antes era um processo difuso. Agora, no entanto, se expressa institucionalmente na política.

Nós consumimos, não contemplamos. Nós nos recolhemos nos moldes de nossas identidades precocemente concluídas, sem abertura ao que possa nos fragilizar. É um mecanismo de sobrevivência diante da desumanização contemporânea da vida. Precisamos de uma identidade, qualquer identidade, para não sermos engolfados pelas coisas. Todavia, como muitos dos nossos estratagemas de sobrevivência, talvez esse também seja um esquema precário, que mais nos aflige do que nos beneficia. Trata-se de um erro justificado, compreensível, mas permanece sendo um erro. E nós não precisamos participar dele.

Por ora, entretanto, é esse o cenário com que lidamos. Temos de conhecê-lo, pois ele também condiciona o modo pelo qual podemos fazer os textos antigos terem algum sentido. Esse mundo é não só o entrave ao diálogo, como também aquilo com que temos de dialogar.

É nessa conjuntura que tem lugar o divórcio da sociedade com as obras clássicas. Refiro-me aqui principalmente a textos que chegaram até nós da Grécia antiga e de Roma, alguns datando de mais de 2.500 anos atrás, enquanto outros, mais recentes, foram redigidos já no primeiro milênio de nossa era. As matérias são várias; os autores, inúmeros; os escritos, labirínticos. Há diversos nomes popularmente conhecidos, seja por leitura direta ou mesmo indireta, como alguma citação pseudoepigráfica nas redes sociais. Homero, Sófocles, Platão, Aristóteles, Virgílio, Cícero, Horácio, Sêneca. No entanto, mesmo sendo essas as referências mais imediatas para este ensaio, considero haver nos apontamentos que trago certas analogias com outras áreas de estudo, mais próximas ou mais distantes, o que fica a encargo do leitor estabelecer.

O que nós do meio acadêmico fazemos estudando e divulgando esses e outros autores? Todos que estamos na área já ouvimos esse tipo de pergunta. Ela vem de um lugar falso e de um lugar verdadeiro. Fingimos só ver a falsidade da questão, mas não reconhecemos que ela também comporta um problema real.

A falsidade da questão está no seu pragmatismo imposto a partir de uma perspectiva incapaz de entender os estudos clássicos em sua especificidade. A vacina nos previne de uma doença. Mas o que Hesíodo nos proporciona? Esse tipo de utilitarismo reflete uma visão chapada do mundo, da homogeneização da qualidade dos resultados, do proveito e da produtividade exacerbada, da mercadologia. Enfim, o pragmatismo no seu sentido mais banal. Esse tipo de pensamento constrói uma espécie de “norma-padrão”, uma criteriologia unívoca, que teria de ser seguida por todas as áreas igualmente. É exigir de algo aquilo que ele não é e, uma vez que tal aspiração é frustrada, aquele objeto passa a ser julgado negativamente por parâmetros alheios. Há aí um egocentrismo escondido, porque, no mais das vezes, o utilitarista tende a ser utilitário apenas em relação àquilo que privilegia os seus próprios anseios e ideias em seu horizonte de consciência. De fato, em um grau ou outro, tomar o próprio mundo como medida dos demais é o que todos fazemos. O biólogo sempre achará que o sociólogo não é suficientemente biólogo. O sociólogo sempre achará que o biólogo não é suficientemente sociólogo. Trata-se de um problema de expectativa, que cria um déficit compulsório e, com frequência, imaginário nos demais campos de estudo. A resposta para isso é resistir a uma avaliação que consideramos ser injusta, por sua inaptidão a entender a nossa posição. Logo, a saída acaba sendo uma forma de antipragmatismo, de não se deixar render a preceitos externos que sejam inválidos. Devemos tentar trabalhar de acordo com nossos próprios termos, preservando a integridade e o valor dos nossos esforços.

Entretanto, há nisso um risco. E é aí que vemos algo de verdadeiro na pergunta sobre o proveito de estudarmos os textos antigos. Concentrando-nos apenas na falha da imposição do pragmatismo, podemos acabar nos refugiando em um antipragmatismo fantasioso que nos isola, que nos torna inoperantes, que nos mantém satisfeitos no clubismo de nossas próprias reflexões ou das filigranas que hiperbolizamos como algo decisivo e fundamental para revisitarmos algum autor ou tema já por demais investigado. (Não nos esqueçamos: estamos lidando com textos antigos que, às vezes, contam com centenas e centenas de anos de estudos e comentários. Às vezes, de fato, elaboramos novas perguntas; mas, às vezes, o “novo” que propomos é tão somente uma ideia polida mas previsível, que repisamos.)

Bordões formulaicos que defendem nossa esfera de atuação como sendo “uma área de pesquisa como qualquer outra”, por exemplo, falam da forma e não do conteúdo, falam do como e não do porquê. Imitamos o formato de outros campos de estudo, mas com frequência há neles uma motivação inerente que os explica, visto que apresentam uma simbiose mais perceptível com relação à sociedade. Para retomar o exemplo já aduzido, nós conseguimos intuir o motivo de uma pesquisa sobre vacinas. Mas desconfiamos de uma nova tradução de Eurípides. Os estudiosos das obras clássicas tentam se deslocar de tal problema usando uma roupagem metodológica e academicista, recorrendo à aparência de “estar fazendo ciência”, mas a questão acerca da relevância desses textos permanece intocada. A certeza sobre o que fazemos é irrefletida, ensimesmada ou ficcional.

Em nossas empreitadas, tanto acadêmicas quanto de divulgação, é frequente legitimarmos a importância dos textos antigos com base na perpetuação de sua memória. Nisso, porém, podemos ver um argumento de fundo monótono ou mesmo teatral, por vezes involuntário, pois, de forma velada ou programática, justificamos a norma sem acessarmos o valor específico do texto diante de nós. Tornamo-nos guardiões da repetição. E isso se torna um mantra não questionado. Tradição sem experiência, sem que experimentemos alguma forma de realidade, é apenas convenção. O trabalho de erudição periga quase sempre engessar os efeitos das obras clássicas dentro daquilo que elas foram. Esse raciocínio deve ser bem entendido. O que elas foram é importante, mas é um ponto de partida. Esses textos só podem fazer sentido no espaço em que encontramos ao mesmo tempo o que eles foram, o que eles ainda podem ser e o que nós somos.

É preciso encontrar uma função, alguma espécie de utilitarismo, que transponha nosso círculo reservado, o que vale, a bem dizer, para diversos segmentos da Academia e explica, em parte, o descrédito que as universidades vêm sofrendo diante da opinião pública (para além da própria desinformação da qual a sociedade é vítima e também promove, claro). O argumento parece idealista ou romântico, quando é, de fato, o justo oposto. Trata-se de buscar o real em meio à irrealidade da erudição. Não se trata de um demérito apenas dos ciclos acadêmicos. Para todas as coisas boas há sempre um infelizmente. Todavia, podemos dirimi-lo, se não completamente, ao menos à proporção das nossas capacidades. Temos de reconhecer o que está funcionando e o que não está funcionando. Temos de nos antecipar à invenção que exigem de nós e encontrarmos, nós mesmos, o que há de substancial talvez já em nossas mãos.

Assim, da mesma forma que contestamos o pragmatismo externo com um antipragmatismo correspondente, temos de combater a armadilha do nosso antipragmatismo com um pragmatismo nosso. Uma disposição interna, endógena, que crie a ponte entre as obras, o nosso empenho e a sociedade. Dito de outra forma, falta pragmatismo em uma área por vezes confortavelmente antipragmática, ao mesmo tempo que o pragmatismo estrangeiro que se impõe sobre essa área é míope por avaliá-la à luz de outros domínios e interesses.


 

***



Contudo, esses textos já aconteceram. O que ainda pode acontecer?

Talvez devamos recorrer à tradição não pela tradição, mas a tradição pelo atualizável. Não a “atualidade” habitual com a qual justificamos essas obras. Não a recorrência de eventos passados que parecem ressurgir aqui e ali no presente; não a continuidade monótona, a causa-e-efeito, que explica que b veio de a, o que, aos olhos da maioria das pessoas, não passa de uma anedota ou curiosidade. Não o mero fascínio escapista pelo antiquário. Refiro-me aqui ao atualizável.

O atualizável dos textos fala de nós, que os atualizamos. As obras não precisam de nós. Mas nós talvez precisemos delas. É necessário descobrir esse ponto de intersecção entre o que elas têm para oferecer e aquilo de que nós precisamos. Não como “observadores desinteressados e imparciais”, o vulgar uniforme científico dos estudiosos de Humanidades – novamente, algo incautamente emprestado de outras áreas. Pelo contrário. Temos que nos redescobrir como observadores interessados. Isso nos vulnerabiliza e nos põe em uma posição desconfortável. Mas não é apenas de fora que iremos entender os textos. É estando fora e dentro. E, para conseguirmos entrar nas obras, precisamos ser sujeitos, indivíduos ativos que tomam parte real e consciente de algo, que se abrem para o que está em jogo, que buscam em si aquilo que o que está diante deles oferece. Não se trata de um vale-tudo nem de uma aventura subjetivista. Incluir-se na obra envolve também uma sofisticação, uma clareza, um rigor, e, o que é mais curioso, uma espécie de desapego de si próprio. Não falo de “subjetividades”, falo de sujeitos, agentes. É uma falácia imaginar que o sujeito obrigatoriamente obstrui o conhecimento do objeto. O sujeito pode, na verdade, avivar o objeto, trazê-lo à tona. A vida que ele traz ao objeto é a vida que ele reconhece em si, graças ao objeto.

Com receio de ser tido por ingênuo — afinal, é em seu intelecto que ele se garante —, vemos surgir o descolamento do estudioso com relação aos problemas que o implicam. É o hábito de se desviar de si próprio. Preferimos não ver o sujeito que opera as equações do conhecimento. Encaramos apenas o objeto, como se ele se bastasse. Isso é uma inverdade. É o acadêmico recorrendo à autoridade pelas reticências, pelo ar de superioridade e pela ironia frágil. Mas as reticências têm um teto, um limite de alcance e de efetividade. E, mais que isso, elas trazem consigo a infertilidade do elitismo. Não podemos exigir que as pessoas sintam a necessidade das obras clássicas se elas parecerem para poucos. Se não houver vitalidade no que apresentamos, nossas pesquisas serão confundidas com preciosismo.

A busca é experimentar os clássicos a partir de uma outra perspectiva, uma perspectiva que crie novas sinapses ou restabeleça propriedades negligenciadas que façam sentido nos dias de hoje. Temos de conhecer as obras e, em seguida, ir além. Lidar com esses textos e autores à maneira habitual, automática, seguindo uma cartilha já muito ruminada, só poder gerar o mesmo interesse habitual, circunscrito. A insularidade costumeira. Evidentemente, não lidamos com uma matéria de interesse universal, mas ela pode ser gradativamente expandida para além do seu ambiente tautológico. Somos uma circunferência que precisa ser saudavelmente rachada, que precisa se expor para o lado de fora, se nutrir com o que há fora. Há responsabilidade não só em entregar, mas também em receber e ouvir. É esse limiar entre o dentro e o fora, essa porosidade, esse trânsito constante, que pode fertilizar o que parece estagnado. De outro modo, somos apenas estudiosos de textos clássicos formando outros estudiosos de textos clássicos que formarão outros estudiosos de textos clássicos. Um ciclo patrimonialista, uma habilidade obsoleta buscando uma ocupação rentável ou manter nossos empregos e algum status.

O que vemos aqui, na realidade, é a exigência de um triplo caminho, por isso tanto mais árduo: inclinar-se em direção aos nossos objetos, em direção ao mundo e em direção a nós mesmos. Normalmente nos dedicamos apenas ao primeiro elemento. Dificilmente ao segundo, com o recurso a justificativas amiúde inócuas e protocolares. Entretanto, raramente vemos o terceiro. Se o próprio estudioso dos clássicos não entende o que está fazendo, que culpa terão os leigos de ver nisso uma espécie de diletantismo?

Somente a inquietação ante os textos pode buscar o que há neles de atualizável. A inquietação fala igualmente de nós, porque nós somos este problema também. É aí que as obras antigas importam. Se não formos honestos com nós mesmos, os textos não serão honestos conosco. Temos de parar de justificar nossos objetos de estudo a partir de falsas necessidades. Se não encontrarmos aquelas que são reais, seremos apenas turistas das obras. Permaneceremos à margem dos clássicos, à margem da demanda social, à margem de nós mesmos.

As obras clássicas não precisam de nós. Mas talvez nós precisemos delas.

Caso nossa investigação se mostre uma necessidade, caso ela parta de um lugar de necessidade, teremos alguma outra forma de início. Temos de examinar essas obras também à luz do questionamento sobre nós mesmos e sobre o mundo. Não apenas sob a perspectiva do passado, mas principalmente do presente e com a nossa presença. O que trazemos dos textos deve ser um eco de uma experiência, uma possibilidade impensada, uma necessidade. E, quem sabe, disso surja algo. Não a modorra dos tempos, mas uma faísca.

Nós somos sujeitos interessados.

Em quê? 

Edição: Antonio Kerstenetzky

Pedro Barbieri é doutorando e mestre em Letras Clássicas pela Universidade de São Paulo. Atua também como tradutor e professor.

pedrobarbieri.antunes@gmail.com