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eclética, plural e marxista-cultural

o homem visto por dentro 

(ou: a andromaquia)

Arthur Resende 

“me sinto mal aqui”, ela disse enquanto agitava as mãos para espantar a revoada de mosquitos que empesteava o quarto, e era em vão. no calor do verão uma massa indistinta desses vampiros invisíveis sempre invadia o meu quarto e toda noite era uma carnificina (de ambos os lados), além da inconfundível sinfonia, capaz de vergar de raiva o mais plácido iogue. a raiva é tolice também, é sangue quente que eles querem. mas acho que ela vinha incomodada de outra coisa, não jantara direito, reclamava das cólicas há horas, tinha a cara vincada com os sulcos que o tempo e o sofrimento nos abrem, contraída numa expressão de inconformidade, e além dos mosquitos tinha o calor, o ar abafado e espesso que nos toca como uma segunda pele que tudo envolve, e eu mantinha a janela fechada para evitar que o gato me fugisse para a rua. e tinha o filme, é claro. mas eu deveria saber que assistir Donnie Darko às três da manhã não era recomendável naquelas condições. sabia, e não me importava. na verdade, via com tanto mais gosto quanto mais ela se incomodava ou simplesmente não entendia nada daquilo, eu também não entendi e nem há nada que entender ali, para além da insípida mensagem final: para salvar alguém, abandone-o! mas nem essa estupidez rebuscada, barroca, impediu que eu largasse o filme e me mantive fiel a ele, mesmo depois que ela dormiu (ou fingiu que dormia), mesmo no momento em que me ocorreu o imprevisto. a tela do meu computador, suficientemente grande para fazer passar por uma televisão, voltada de cima da minha mísera mesa de trabalho para a cama em que estávamos deitados, era a única coisa em que eu prestava atenção. ou talvez me viesse à cabeça aquela ruiva, na verdade só pensava nas pernas dela que eram muito brancas e roliças e que nunca toquei. ouvi qualquer outra queixa sobre ela sentir-se mal e não conseguir suportar mais aquilo, e eu levantei para pegar um copo d’água gelada que sorvi num só gole, violento e ofegante, como quem saísse do deserto. levei uma garrafa d’água para cama, dei de beber a ela com paciência e sugeri então que dormisse. ela perguntou como, com as porras dos pernilongos zunindo na cabeça dela, falei para ela que abanasse com as mãos quando zunissem muito perto que logo ela acostumava com o som e dormia, e não sei como ela não me mandou à merda naquela hora. 
 

a minha cama de casal, inicialmente projetada para caber-me nela com todas as minhas angústias, as ansiedades que não me deixam dormir, não nos dava conforto como se poderia supor. na verdade, eu dormia mal com ela, não sabia o que fazer dos meus braços que doíam e formigavam não importava se a abraçasse ou os retivesse junto ao corpo, e era uma vontade ensandecida de arrancá-los fora quando algum nervo retesava do pulso ao ombro, numa dor cadente, ritmada, e que se prolongava pela minha impotência de simplesmente abandoná-la ao próprio sono, como se o meu abraço noturno simbolizasse a realidade dos meus afetos, a perenidade do meu interesse nela, o compromisso... mas a realidade é como se não fôssemos desenhados para dormirmos juntos, e assim como a cama, os lençóis, os travesseiros, cobertas e tudo o mais que nos cerca, o abraço noturno é uma antinatureza. no nascimento e na morte, na dor e no gozo, o homem está só; e também quando dorme. mas naquela noite ela se virou para o outro lado e dormiu (ou fingiu. confesso que nada distingo nela de real ou fingimento). poderia ser que a atitude dela mais requisitasse a minha atenção, como é uma burrice muito comum quando se quer ter a atenção de alguém, fingir desinteresse ou autossuficiência. mas àquela altura isso não me importava. continuei atento ao filme, ainda que dele eu não retirasse nada mais que uma expectativa frustrada de sentido, como é com a vida. o meu quarto era uma estufa quente e escura em que só se ouvia o filme (que não me dizia nada) e os malditos mosquitos quando passavam perto, e era precariamente iluminado pela tela do computador e alguma nesga de luz que viesse da rua pela janela. a janela do meu quarto ficava sobre a cama e era mal coberta por um lençol velho que eu improvisara como cortina. menor que a medida da janela, ele não a cobria toda, mas era o único modo de preservar alguma privacidade, já que a janela dava para a rua. apenas um trecho no canto esquerdo da janela permanecia descoberto, o canto próximo à cabeceira da cama, para o qual eu mal olhava, já que prestava atenção ao filme, ou jurei para mim mesmo que prestava no momento em que ela se virou para dormir e toda essa loucura me passou pela cabeça, a impossibilidade de abraçá-la e as pernas intocáveis da ruiva, e como o corpo da mulher é intangível (malgrado meu desejo infinito) e foi nessa hora, exatamente nesse instante, que me aconteceu.
 

divisei com o canto do olho uma sombra movimentando-se na janela, para a qual pouco liguei atenção de início, e só pude percebê-la mesmo por recobrir o pouco de luz da rua que ainda me entrava no quarto pela parte que o lençol não cobria. podia ser um transeunte. podia ser o gato da vizinha a me andar pelo beiral da janela do lado de fora. podia ser eu mesmo estando com a vista muito cansada forçando os olhos na tela em meio à escuridão, ou o meu juízo já muito cansado do meu esforço de erigir algum sentido (para o filme ou para a vida). fosse o que fosse, ignorei. ignorei como quem ignora os primeiros sinais de um mal grave que nos começa a comer as entranhas ou apodrecer o sangue; como quem ignora aquele aborrecimento cotidiano que devora a felicidade diária, ou aquela rusga que anuncia que o amor nos deixou. ignorei, porque viver é estar ignorado. mas percebi em um dado momento que a sombra, que inicialmente se movimentara como alguém que passasse, fixou-se definitivamente à janela. não sou covarde nem me amedronto com facilidade, e mesmo no breu fundo do quarto com os olhos vidrados na tela, poderia ser O Exorcista ou Amélie Poulain que nada me perturbaria, à exceção, talvez, da pieguice fingida deste último. as coisas que temo dormem comigo. eu as vejo nos meus sonhos. eu as chamo na hora do gozo. as coisas de que tenho medo são meus amigos invisíveis.
 

virei a cabeça com decisão em direção à janela para olhar de frente. lá estava ela. era a silhueta de um homem, parado diante da minha janela. não era possível distinguir o rosto, mas era certo que estava de frente. ele nos olhava. não sou homem de tolerar extravagâncias, sobretudo as abordagens insidiosas, invasivas. mas aquela não me pareceu, a princípio, coisa que valesse a briga, ainda mais àquela hora, ainda mais com ela ali ao lado, que finalmente dormira. era possível que fosse um bêbado voltando da noitada para casa ou algum morador de rua (têm aparecido tantos ultimamente) que passasse por ali e, vendo a luz da tela que passava o filme insólito e insosso, resolvesse espiar quem estivesse ali dentro e logo caísse fora, sobretudo se se percebesse visto. tornei a virar a cara para o filme e fingi que não vira a figura, talvez ele fosse embora se notasse que não conseguiu minha atenção e nem vai ter nada a ganhar parado à janela de alguém no meio da noite.
 

não foi o que aconteceu. por mais que esperasse que a figura sinistra à minha janela se dissipasse feito névoa ou figura de sonho, dessas que instantaneamente viram outra pessoa, ou bicho, ou nada, ela permanecia imóvel com o rosto quase colado ao vidro canelado da minha janela, que embaçava, mas não escondia totalmente o interior do meu quarto. não sou de tolerar abusos, já disse. mas considere que eu estava desesperadamente à cata de algum sossego. e por mais que a vida volta e meia me dê ocasiões de desafogo, nem sempre a explosão da minha raiva, língua em que traduzo eloquentemente minhas frustrações privadas e dou de provar ao mundo um pouco da minha dor de estar vivo, nem sempre esses acessos me são convenientes. tudo te é lícito, mas nem tudo te é conveniente. as lições do catecismo e as ladainhas do padre, que me davam sono na infância, ganham uma onipresença insuspeita depois que me fiz homem. envelhecemos e damos razão à teologia. a infância é irreligiosa por essência, por isso não entende, por isso é feliz. hoje larguei a igreja e Deus veio ter comigo com sua face mais abjeta: a indiferença banal de todos os dias, em que nossos míseros sofrimentos valem tanto quanto o pó que se ajunta na mobília. aí desaguamos nos outros, os outros são o nosso mar: acolhem (a contragosto, claro) todo o lixo que produzimos e não damos conta. mas a incontinência, a ira, segue sendo pecado. Deus nos abandona a nós mesmos, torrentes de desejo frustrado, e nos proíbe de nos precipitarmos uns sobre os outros: esse deveria ser o primeiro problema da teologia. o tempo pacificou a minha cólera, ou apenas ganhei preguiça dos olhares de reprovação e passei a fingir que sou sociável e boa praça (o irascível é mais desprezível que um leproso, ninguém pode ser mais odioso que aquele que se irrita, que ergue a sua raiva tola sem motivo contra os outros, que vende a alegria falsa dos outros a preço módico. nada permanece de pé diante da ira, nenhuma comitiva se mantém, dissolve-se a festa, apagam-se os sorrisos hipócritas das bocas etílicas. a ira é um torvelinho que tudo consome, boca que tudo mastiga, a ira divide, a ira cinde: ela é o próprio diabo). a mulher ao meu lado também me ajudou a esmorecer a minha ira. com ela do meu lado ganhei ares de bicho civilizado. gosto dela, não a quero mal, e secretamente temo seu olhar de reprovação (não mais que seu riso de escárnio). não topo briga com ela ao lado, salvo em caso extremo, naturalmente. e agora não me parece um caso desses. não vou topar discussão e perturbar a pouca paz que esse resto de noite, esse filme estúpido e o sono dela me oferecem por conta de um maldito sem noção que resolveu ficar me espiando pela janela. aqui não há nada para ele ver, eu o ignoro e prego ainda mais as vistas na tela do computador, minha namorada dorme sob minha coberta, visível nem um traço do seu dorso (seu dorso forte e generoso de músculos e gorduras, belo como o dorso de um cavalo), não há nada à mostra que ele pudesse asquerosamente cobiçar, e nem adiantaria esperar que alguma lascívia se produzisse, ainda que eu saiba que ela espera insatisfeita; eu quero o sossego dos sepulcros (como sinto que agora finalmente encontro neste quarto) onde não tenha mais que prestar contas do meu desejo difuso e perturbado. me surpreendo, porém, tendo ciúmes do corpo dela. ciúmes daquele corpo que me aguarda inquieto, em estado de perene agitação e cobiça, as quais eu frustro conscientemente. alguma coisa me aperta o peito e constrange a minha respiração, é como se uma bigorna pousada em meu abdômen me pressionasse o diafragma e aquele ar quente do quarto já me entra difícil nos pulmões só de imaginar que algum olhar de homem espera obter alguma satisfação, garimpar algum gozo sujo ali naquele corpo que eu renego. volto a cabeça violentamente para a janela já esperando vê-lo todo voltado para os braços soltos dela, numa liberdade invejável, ou espreitando o caminho que suas costas curvas desenham, descendo até a bunda que a coberta fina nem de longe disfarça, mas antes ressalta a fartura daquelas formas, que parecem ainda mais cheias e convidativas sob o tecido.
 

dei com os burros n’água com meu ciúme, como é de hábito. o ciúme é uma forma característica de cegueira, em que se vê a mais e não a menos. a sombra do homem lá continua, inalterável, e constato, mais aliviado que surpreso, que seu olhar (que não distingo totalmente no negrume da noite) na verdade se dirige a mim. solto um suspiro fundo pelo qual me sai a bigorna do ciúme do peito e até o ar pestilento desse meu quarto imundo me entra agora fresco feito brisa. e admiro a silhueta de homem, de cabelos muito curtos e umas orelhas de abano salientes e nodosas que lhe estão penduradas, que me fazem lembrar as orelhas do meu pai, de sono leve e sempre atento ao menor ruído, agora eu olho para essa sombra com uma quase simpatia. e por um instante não me incomoda mais a sua presença, que vai me parecendo familiar, inclusive. como uma visita inesperada de um parente distante, como meu pai morto, ou meu avô, ou meus antepassados, que agora vêm a minha casa, vêm para ver como estou indo, se está tudo bem. como se todas as gerações de homens que me antecederam se amalgamassem numa única figura que assoma à minha janela, como um anjo noturno e vigilante que aguarda na sombra, velando por mim. mas ao anjo cumpre anunciar a boa nova e também a maldição. lúcifer também era um anjo. figuras bicéfalas da teologia, os anjos sejam talvez nossas imagens espelhadas. mas esse anjo sem rosto que agora encaro, postado diante da minha janela a me encarar de volta, esse fantasma absorto que parece dar forma à minha genealogia doentia, essa encarnação das minhas faltas, ele não me espelha nem me revela. me encara como meu pai me encarava. raivoso e à espera de alguma satisfação. me sinto de novo o menino petulante que nunca calou e minhas faces ardem de novo, como quando a mão pesada e calosa do meu pai me acertava uma bofetada violenta nas fuças, mas eu permanecia de pé, a cara num vermelho-sangue explosivo, contendo penosamente meu grito de dor, prestes a rebentar na garganta, e as lágrimas que banhavam abundantemente meus olhos a ponto de me embaçar a vista. eu me continha não por medo (que diacho ter medo de quem quer que seja!), mas, ironia estúpida, para mostrar ao meu pai que eu era o homem que ele esperava que eu fosse. como ele fora, como seu pai fora, e seu avô, e todos os homens que daquele sangue maldito comungavam. imune à dor, insensível como uma rocha a qual nem o vento verga nem a tempestade move. eu menino queria ser homem, e desprezava a irrecuperável liberdade de chorar, de chorar abertamente aos berros, vertendo lágrimas e baba aos borbotões, esperneando e me debatendo em convulsões quase epiléticas, demonstrando flagrantemente a minha dor, o meu desespero, o fato de que sou de carne e sofro, e me sinto só e burro, e nada me acode. e de repente, em meio a essa bizarra familiaridade de que o meu ilustre visitante me dá de provar, me brota um incômodo quase intolerável, e eu quero tocar esse maldito filho da puta para fora minha janela, mesmo não querendo estardalhaço para não acordá-la, mas eu estou agoniado de verdade, como se fosse meu pai que levantasse do túmulo na hora aberta para vir me assombrar e desestabilizar o pouco sossego que angariei sem ele, mas não sou homem de acreditar nesse monte de merda que se contam dos mortos, de sorte que até cogito sair silenciosamente da cama, ir à minha mesa tomar a minha chave (e percebo que o filme idiota acabou e agora correm os créditos) e sair à rua para expulsar esse imbecil desocupado da minha calçada como se expurgasse do meu corpo algum demônio velho e achacador. desisto, no entanto, da minha intenção heroica, tão logo me dou conta do possível escândalo que tanto quero evitar, que ressonaria ainda nos vizinhos, certamente.
 

preciso de outra estratégia, preciso me comunicar com ele de alguma forma. ergo ligeiramente a cabeça e as pálpebras como quem indaga “qual é, meu irmão?” e aguardo alguma reação. e repito o gesto, e de novo, agora já erguendo a mão direita numa impaciência incontida. nada. a menor reação, nem um único movimento com a cabeça. nada. com a mão direita ainda começo a fazer gesto como que o enxotando, mandando que vá embora, numa pantomima esdrúxula e pouco convincente. do mesmo tipo daquela que passa longe de espantar os mosquitos, mas que recomendei a ela para dormir. e me sinto um completo estúpido por recomendar algo tão ineficaz quanto ridículo. estico o braço direito por cima dela para tentar puxar a beirada do lençol um pouco mais para o canto e tapar aquela figura maldita, tomando todo cuidado do mundo para não a acordar, olho de novo para a janela enquanto toco de leve com as pontas dos dedos no lençol e a figura me parece maior. ele cresce, toma um certo volume, se agiganta e parece que me olha de cima, mas como pode isso no mesmo vão de janela em que mal passam duas mãos juntas? isso é fruto do meu desespero e do meu cansaço, não preciso de tanta agonia só para tapar um canto de janela, meu deus eu botei tudo nessa casa menos uma porra de uma cortina, e eu puxo mas o lençol não cede, e eu puxo de novo e com mais força e começo a tomar consciência de que se puxar com demasiada força ele pode ceder inteiro, preso que está no basculante superior e desabar sobre a cama, desfraldando para a rua toda o meu quarto. meu braço em riste começa a doer e eu já não tenho forças para suportar as tentativas inúteis de puxar o lençol sem mexer muito e desisto da empreitada, voltando com a calma que me resta à posição inicial. ele segue parado, imensa figura de homem me encarando, agora como que esperando, talvez exigindo. não tenho nada a fazer, não posso me livrar dele com a violência de que gostaria, é como se cada tentativa nessa direção ampliasse sua envergadura, até que aquela sombra imensa dominasse por completo minha janela, meu quarto, minha vida. 
 

é aqui o limite do homem. tudo quanto ele quer eu não posso oferecer. ele espera que eu o expulse aos gritos, metendo-lhe as mãos no peito e dizendo aos quatro cantos que a minha casa não é bagunça, que quem manda nessa porra sou eu e que ela, os vizinhos e quem mais que se incomode com o meu escândalo gratuito às tantas da manhã pode ir pra puta que pariu que eu não me importo, mas eu não vou fazê-lo porque estou cansado do peso que a minha ira atraiu para mim, estou cansado de repelir os outros a troco de nada, essa ilha de segurança e autossuficiência que me suponho. ele treme de ânsia e febre esperando que eu resolva toda a merda que há entre mim e ela numa foda homérica, e me indaga num desejo furioso “Não vai comer essa piranha logo, seu veado?”, sem suspeitar que eu sequer cogito a tentativa, e mesmo que eu esfregasse a mão por sobre o seu dorso e com um beijo úmido e prolongado em sua nuca, que levasse minha língua aos contornos da sua orelha, num flagrante convite ao único tipo de entendimento de que éramos capazes há semanas (eu sopraria um vento leve, como bem sei fazer, uma brisa ligeira mas suficiente para atear fogo naquele braseiro que aguarda ainda quente debaixo de muita cinza), mesmo assim eu falharia com meu corpo inútil e mortificado, meus dedos inábeis e minha língua rija, e ela me reviraria do avesso, apertando-me a nuca e beijando-me o peito aberto em pelo, enquanto a outra mão me descobre a trouxa murcha do meu sexo que ela não mais aviva, e talvez ela até tente me relaxar correndo as mãos pelas minhas pernas, apertando os nós dos dedos dos pés e comprimindo as solas, mas eu já estou previamente ciente de que nada acontecerá e acabaria deixando-a, primeiro na ilusão de que promoverá algum milagre, com as artes de Vênus que angariou na vida, depois com a insatisfação de costume, em que dormimos quase todo dia. 
 

ele me espera naquilo que já não posso ser, mas estou tranquilo quanto a isso. sim, verdadeiramente eu agora começo a me tranquilizar, e é como se o meu visitante não pudesse mais ter efeito de expiação sobre mim (o dia começa a clarear). vejo que a sombra lentamente diminui, é como se ele se afastasse, mas muito lentamente e à medida que acalmo minha respiração ofegante, e o calor do meu sangue baixa a temperaturas amenas, abaixo do ódio. aos poucos ele se distancia (o dia começa a clarear), as luzes da rua vão perdendo o efeito, eu quase que conseguiria vê-lo, mas agora ele está tão pequeno, e é uma figura estranha e baça através do vidro canelado da minha janela. mas eu quero vê-lo a todo custo, quero agarrá-lo pelo braço, dizer que já não sou levado por qualquer babaca a fazer o que não devo, a fazer o que sempre faço, quero lhe jogar na cara que hei de ser outra coisa, ou coisa nenhuma (o dia começa a clarear), mesmo que eu continue esse poço de som e fúria sem razão, sem fundamentos, eu saberei (e muito bem sabido) o que estou sendo. mando a coberta para o ar num impulso frenético e me jogo da cama atrás de meus chinelos. ela acorda sobressaltada e me vê ainda com os olhos de sono mudando de roupa numa correria sem explicação. me pergunta: “onde você vai? o que está acontecendo?” mas eu não tenho tempo para respostas, não tenho mais que lhe dar satisfações e ela que tome seu rumo, mesmo a essa hora da manhã, mesmo sem fazer ideia do bem que lhe faço. e ela insiste nas perguntas, “aconteceu alguma coisa?”, e eu já abotoando o último botão da camisa miro a janela e vejo, ínfimo, a figura de homem que já quase desaparece no lusco-fusco, e enquanto eu tomo a chave e desembesto para a porta ela me segue na carreira aos berros “que porra que tá acontecendo, André?”, e eu não dou ouvidos. e saio para rua afora. e não olho para trás. é dia claro.


São João del-Rei, 16/01/18, 
madrugada.
 ∎ 

Edição: Antonio Kerstenetzky

Carlos Arthur Resende Pereira é doutorando em Filosofia pela UERJ. Já publicou o volume limiares (poesia – 2017) e alguns poemas na revista 7faces (Ano VIII, 16ª ed.,
ago.-dez. 2017).