O corpo do pai 

Daniel Mano

Como a maternidade é mais comumente associada ao corpo e às suas transformações, há algo de original a ser dito sobre o corpo paterno, que escape ao lugar-comum do pai-autoridade-exemplo-racionalidade-amor. Como o corpo é o reino da sensibilidade e da verdade, espero que incluí-lo na reflexão sobre a paternidade nos imunize a todos contra o distanciamento afetado do pai-filósofo, para quem a paternidade constitui uma experiência muito mais moral que corporal. Geração, gestação, nascimento e criação dos bebês formam um conjunto de situações que são as mais renitentes expressões da natureza; como os últimos bastiões de nossa animalidade, sitiada pelas hostes de Deus, do Plástico e do Algoritmo. São como a rosa de Drummond, a furar “o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio”. As observações que seguem se aplicam, sem dúvida, à experiência materna, mas acredito que a radicalidade das transformações havidas no corpo feminino ofusquem aquelas de que trato neste ensaio, tornando-as ainda mais sutis do que já naturalmente são. 

           

Não que todos esses momentos, da gestação à criação, já não se encontrem escrutinados, controlados e privatizados em diversos aspectos, mas algo de autêntico persiste em cada um deles, uma espécie de âmago indomável, que talvez repercuta com força no restante do tempo de vida humano. Explorarei, neste ensaio, o impacto produzido pela etapa da criação sobre o corpo paterno, os efeitos do encontro entre o corpo bruto do bebê, “que acaba de sair das mãos de Deus”, e o corpo disciplinado do pai. Oswald de Andrade reconheceu no longo e laborioso estágio da criação  um notável indício do “déficit essencial e permanente” do homem frente às outras espécies animais. Observa Oswald: “o homem é o animal que demonstra uma imensa incapacidade inicial, exigindo, para existir, esforços e recursos de que prescindem todos os outros”. Séculos de civilização não alteraram essa condição deficitária, que nos torna carentes de cuidados e atenções por anos a fio, até que estejamos prontos (?) para o mundo, à diferença de cachorros, gatos, vespas. Oswald identifica nesse incontornável déficit a raiz para a compensação posterior, na vida adulta, quando o homem converte-se em “transformador e mestre da natureza que o envolve”, buscando eliminar por completo a indeterminação, um processo que bem poderíamos denominar “complexo de Fausto”.

           

Embora a hipótese de Oswald me pareça bastante persuasiva, gostaria de explorar um caminho alternativo ao seu, e sustentar que esse déficit, embora possa estar na origem de nossos desejos de controle, talvez origine outros desejos e formas de vida. Indo direto ao ponto: acredito que a ausência de reversão do déficit humano original, um concebível processo de autonomização antecipada dos bebês, não é um problema tecnológico, mas da ordem do desejo, ou, mais propriamente, de sua ausência. Em realidade, suponho que nós, pais e mães, não desejamos fazer de nossos bebês seres superavitários, embora esta talvez seja uma tarefa realizável, algum dia, do ponto de vista da engenharia genética – vide a distopia de Huxley em Admirável Mundo Novo. Manifestamos legítima aversão, nos dias atuais, a técnicas eugênicas que poderiam “resolver” a questão do déficit original para as gerações futuras.

 

Por que desejaríamos então nos manter nessa condição precária? Por que não devemos conceder às futuras gerações a mercê da excelência corporal logo nos primeiros dias de vida? Segundo as observações que pude extrair de minha experiência paterna, há boas razões para isso. Muito resumidamente, em primeiro lugar, o estágio da criação configura uma experiência anti-húbris, através da qual o corpo se recoloca no mundo, a princípio de forma penosa, mas com ganhos de longo prazo em refinamento e autoconsciência. E, por último, essa mesma experiência incita encantamentos relacionados à linguagem desenvolvida entre os corpos, e à ativação de sua latente função simbólica.

 

 

Etapa 1: O corpo canhestro

           

Uma primeira transformação relaciona-se ao princípio da relatividade. As dimensões corporais se definem por comparação com aqueles que os circundam. No correr da vida, esse princípio dificilmente é percebido, pois convivemos com contextos muito constantes e regulares. Vivemos em uma casa, com suas dimensões definidas; acaso troquemos de casa, essas dimensões pouco variarão. Convivemos, em nossa intimidade, com um punhado de pessoas, e se aceitamos nesse círculo restrito um novo integrante, este provavelmente guardará semelhança física considerável com os antigos membros do círculo íntimo. Peso, altura, disposição dos membros, todas essas variáveis tendem a oscilar pouco nas comunidades afetivas de que participamos. Dentre as exceções a essa regra, destaca-se a chegada inopinada de um bebê.

 

As mudanças corporais sentidas de que trato aqui, como se vê, não são originalmente internas, isto é, não são de dentro para fora, como aquelas derivadas das taxas hormonais nas mulheres. Trata-se de mudanças circunstanciais, isto é, originadas do deslocamento do corpo paterno para um contexto sensivelmente distinto daquele em que se encontrava anteriormente, o que não as torna menos capazes de se fixarem no corpo e sua memória.

 

O futuro pai ajustava-se comodamente às dimensões regulares das coisas. Sua vida transcorria entre os monótonos 1,75 metros de altura média dos convivas, seu corpo indolente tomava por óbvia a altura conveniente dos pés-direitos, suas pernas já se haviam amoldado à distância pétrea que separa os bancos dos ônibus. O choro do bebê, porém, anuncia uma reconfiguração drástica: o agora pai torna-se Gulliver, um Gulliver doméstico, sedentário, que não se lança aos mares do sul, mas dispõe-se a receber e criar em sua casa o excêntrico náufrago oriundo das plagas de Liliput.

 

O estrangeiro já nas primeiras horas de sua estadia impõe, como um monarca, Bebê (O Nanico), uma série de alterações nos movimentos de seu recém-conquistado súdito: agachamentos, inclinações, flexões nas mais recônditas articulações. Toda essa sorte de reverências e adulações produzem efeitos óbvios sobre o corpo do pai, os quais me são dolorosos o suficiente para que evite mencioná-los aqui. Os efeitos mais duradouros e intensos, porém, são outros, relacionados à percepção, pelo pai, da própria canhestrice diante não apenas de seu delicado visitante, mas de toda a sua entourage material: brinquedos, roupas, apetrechos, que exigem do pai uma delicadeza no manejo até então desconhecida.

 

A paternidade, nesse sentido, é uma ferida narcísica. Uma demonstração categórica do próprio ridículo, dos modos grosseiros e aparvalhados que o pai, como um ciclope, mantivera até o advento do bebê. O pai, resignado, inicia então um tortuoso processo de reeducação; modula sua força, seus gestos bruscos, seu pisar ruidoso, e busca alcançar um grau de singeleza que lhe permita lidar com seu monarca condignamente. Esse processo talvez perdure pelo resto da vida, talvez a singeleza adquirida se torne indelével, não expire mesmo após a partida desse hóspede tão invulgar e encantador. Devo advertir o leitor que passados mais de dois anos, e já não sendo tão necessária como antes, percebo ainda a preocupação enraizada com a sutileza dos gestos, cravada em mim como a faca ausente de João Cabral de Melo Neto: “Isso que não está/ nele está como a ciosa/ presença de uma faca,/ de qualquer faca nova”.

 

Etapa 2: Conjuração dos corpos

 

Outra mudança, que tenho como a principal, resulta de outro aprendizado, este relativo à linguagem estabelecida entre pai e bebê. Trata-se aí de uma subversão da linguagem corriqueira, na qual, quando não compreendemos algo, indagamos: “- o quê?”, e o interlocutor nos responde aumentando o tom da voz. Nessa cena, está subentendido que a incompreensão deriva do uso deficiente da palavra, prontamente corrigido pelo interlocutor. A cena prosaica que acabo de descrever é subvertida na relação entre pai e bebê, pois a incompreensão do primeiro deriva do manejo deficiente não da palavra, mas do corpo pelo bebê. Ao perguntarmos “–o quê?”, desejamos que o bebê nos aponte ou mimetize aquilo que deseja. A comunicação, portanto, baseia-se na capacidade paterna de interpretar aquilo que o corpo infantil expressa.

 

Logo, o pai transforma-se em um Chaplin de arrabalde, na tentativa de fazer-se entender pelo bebê. Preenche sua existência de mímicas, transforma-a numa pantomima grosseira, de modo a fazer-se entender por seu pequenino interlocutor.  Acontece que ao longo desse processo, iniciado por motivos pragmáticos, a pantomima revela seu encanto secreto, captura a imaginação e a memória afetiva do pai e se fixa como um código alternativo, uma linguagem subterrânea entre pai e bebê, mas também entre os próprios pais. Neste último caso, não é difícil observar que os pais desenvolvem entre si piscadelas maçônicas. Passaram a prescindir do signo verbal, pois são capazes de reconhecer alegria, reprovação, tensão por sutis expressões, como a forma de sorrir, de menear a cabeça, de franzir o cenho. Os pais acabam por se tornar figuras quietas, circunspectas, tais como os personagens de Vidas Secas.

 

Não é o caso, aqui, de afirmar que os pais se insurgem contra as convenções sociais estabelecidas, mas de defender que eles instauram outra convenção, cujo centro de gravidade não é o signo verbal, tampouco o signo matemático, ou outros de natureza gráfica. É o corpo o protagonista, são os corpos conjurados, que interagem a princípio por utilidade e, em seguida, por prazer, por redescobrirem sua força simbólica, uma força atávica dormente, solapada por razões que deixo aos filósofos e historiadores especularem. Corpos indóceis.

 

Por que a forma corporal de interação entre pai e bebê extravasa seu raio inicial e espalha-se para o trato entre pais, entre pais e seus amigos e convivas em geral? Por que não se apaga, se o miúdo dorme e já podemos nos entender em bom português? Suspeito que mantenhamos a corporeidade ativada devido ao fascínio que sentimos, próximo àquele que ocorre ao fruirmos o corpo como arte: na dança, no teatro, na performance. Essas últimas ocasiões nos levam a experimentar o encanto do corpo em sua função simbólica, mas nos ensinam, também, que há um palco, um momento destacado da experiência comum, no qual se autoriza ao corpo que exprima paixões, ideias e coisas. No exercício paterno, por outro lado, atesta-se a presença forte da expressividade corporal no rumo ordinário das coisas, na linguagem de todos os dias, nos momentos de intimidade e descontração, e que o ridículo e a canastrice normalmente associados ao emprego do corpo fora dos palcos tem pouca razão de ser: trata-se de um exercício útil e agradável.

 

Mas, afinal, o que haveria de tão fascinante nesse jogo dos corpos, que torna o pai naquele sujeito cheio de abraços afetuosos, muxoxos e gestual de calabrês? Acredito que a resposta resida na natureza complexa do signo corporal, distinta dos outros códigos. Estes últimos - palavras, números, etc - são amiúde considerados de um ponto de vista instrumental, e pouco despertam em nós, se não imaginarmos aquilo que conotam. Não é comum nos emocionarmos, digamos, com a contemplação de uma regressão linear múltipla, ou nos admirarmos com sua beleza ou fealdade. Já o corpo nos afeta tanto como signo quanto como fato; tanto pelo que representa quanto por sua simples presença. Ao nos depararmos com um semblante de dor, somos afetados pelo que o semblante conota - a dor - e pela própria visão do semblante, que nos é desagradável, de tal maneira que a mera visão da palavra “dor” não seria.

 

O signo corporal é especialmente impactante, em suma, pois é signo e carne, signo e ossos, signo e sangue. Mesmo na mímica mais trivial, flagramo-nos absorvidos pela ação do imitador. É-nos vedada a indiferença ao corpo alheio, e, de a essa natural disposição, se acresce o simbolismo que por vezes carrega. Quem sabe não seria essa a mensagem de Walt Whitman, ao indagar-se: “que pode haver de maior ou menor que um toque?”.

 

Minha sugestão antioswaldiana, para retomar a questão que originou essa digressão, é que nós, humanos, não desejamos perder esse aprendizado do corpo, esse “déficit original” que nos impele a interagir com nossos bebês sem a parafernália verbal constituída ao longo do processo civilizador. Apreciamos secretamente a estadia desses rudes náufragos em nossas terras. Estimamos a graciosidade de suas gargalhadas, horrorizamo-nos com a violência de seus choros, e, no fim, tornamo-nos adictos dessa vivacidade. Quando menos se espera, estamos nós, pai e bebê, abraçados, entoando um cântico ancestral, ensaiando os passos de uma dança telúrica, unidos a tal ponto em nossa caótica harmonia, que o mundo lá fora já não importa, e não se saberia dizer onde terminam os dançarinos e onde começa a dança. ∎ 

Edição: Antonio Kerstenetzky

Daniel Mano é doutor em Ciência Política pela UFF, pós-doutorando na UFRJ e escritor diletante.

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