Meu pai é caminhoneiro... 

Jefferson Viel 

Meu pai é caminhoneiro. Permaneceu cinco dias no trecho sul do Rodoanel. Parou involuntariamente. Havia terminado seu dia de trabalho e voltava para casa quando, surpreso, deparou-se com o bloqueio da estrada. Indignou-se. Mesmo tendo trabalhado por anos e anos nas fábricas metalúrgicas do ABC paulista, boa parte deles quando da ascensão do “Novo Sindicalismo”, criação da CUT e formação do PT, nunca foi militante. Pouco confiava, e pouco confia, nos sindicatos e em seus líderes. Não era, e ainda não é, entusiasta das mobilizações trabalhistas, das greves e muito menos do comunismo – que, como aprendera desde a infância na zona rural, era algo muito perigoso. Passou fome no primeiro dia de paralisação. Não costuma almoçar fora. Espera chegar em casa, já ao fim das tardes, para fazer sua refeição. Estava sujo. É assim em todos os dias de trabalho. A contragosto, portanto, ficou paralisado, sujo e com fome. Com o cair da noite, veio ainda o frio. Crista da Serra do Mar. À beira da Billings. O inverno finalmente chegando. Tem um caminhão toco, de médio porte. Seus itinerários se limitam à Grande São Paulo e ao Porto de Santos. Volta para casa todos os dias. Não há roupas extras, cortina, cama ou cobertor. Sujo, com fome e com frio, meio furioso, meio apreensivo, dormiu no banco em que trabalhara o dia todo.

 

Na manhã seguinte, o filho mais novo vai de motocicleta a seu encontro, levando todos os itens necessários para a permanência na estrada. Comida é o item principal. Meu pai então pode fazer sua primeira refeição desde o café-da-manhã do dia anterior. Atenuada a fome, abranda-se também a ira. No segundo dia, com o sol nascido, é hora de deixar o caminhão, conversar com os demais caminhoneiros, inteirar-se do movimento. Movimento? Como ele, a maioria está ali a contragosto. Não pararam para o bloqueio, foram parados por ele. No entanto, os problemas da categoria atingem a todos uniformemente. O valor do combustível é alto. O valor do frete recebido é baixo. Eis uma boa e velha pauta salarial! A indignação com as próprias condições de trabalho, remuneração inclusive, reúne aqueles diversos profissionais antes amontoados involuntariamente – ao menos em sua maioria. Algo se cria ali. A apreensão dá lugar à confraternização. “Hoje tem churrasco”, diz a legenda da foto enviada por telefone. Pelo que se podia ver, havia um a cada quinhentos metros de pista. Os demais itens necessários para a permanência na estrada vão chegando ao longo do dia. São trazidos por caminhonetes não se sabe de quem, por movimentos sociais e religiosos organizados e por outros caminhoneiros, que voltaram à paralisação mesmo tendo sua passagem sido anteriormente liberada.

 

Da confraternização chega-se finalmente à mobilização geral. Notícias sobre os diversos pontos de paralisação em todo o país começam a chegar aos telefones dos caminhoneiros. O apoio popular também é percebido. Agora sim movimento? Não sei. De todo modo, estar lá se torna menos penoso. Mesmo ainda sujo. Mesmo sem banheiro. Mesmo se de início involuntariamente. Uma vez lá, parando o país, experimentando uma força até então desconhecida, o importante é conquistar a vitória, ter as demandas atendidas. O governo golpista, tão estarrecido quanto em 2013 ficara aquele, eleito, reúne-se com os representantes da categoria. Um acordo é firmado. A paralisação pode terminar. Mas governo qual? Representantes quais? E os caminhoneiros, que estão ali reunidos nas estradas? Quais pautas suas serão efetivamente atendidas? Às favas os acordos! A paralisação continua. Helicópteros televisivos sobrevoam as rodovias. Na pista se sabe muito bem o que dizem os telejornais. Dedos em riste contra os helicópteros. Impropérios contra as redes de televisão, especialmente aquela, odiada pela esquerda. Parece que a imprensa hegemônica não agrada a ninguém, no fim das contas.

 

Em casa, as reclamações e preocupações que chegavam por telefone são substituídas por informações realmente políticas da paralisação. Meu pai, ex-metalúrgico, atual caminhoneiro, conservador em toda sua vida economicamente ativa (recentemente estendida), torna-se de alguma maneira um manifestante. Progressista? Reacionário? Como em 2013, isso será – e tem de ser – disputado. No entanto, vê-lo voltar para casa solidário, e talvez se possa até mesmo dizer engajado, depois de cinco dias de paralisação foi uma alegria inesperada. ∎ 

28 de maio de 2018

Edição: Antonio Kerstenetzky

Jefferson Viel
é doutorando em Filosofia pela USP, com interesse em política contemporânea.

jefferson.viel@usp.br