Referências

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RUBIN, Gayle. “O Tráfico de Mulheres: notas sobre a “economia política” do sexo”. Recife: SOS Corpo, 1993.

 

SCOTT, Joan. “Gênero: uma categoria útil de análise histórica”. Educação & Realidade, v. 20, nº 2, Porto Alegre: UFRGS, 1995.

Feminismos, tensões e ambiguidades em Girls 

Brena O'Dwyer

Uma tendência bastante palpável dos tempos atuais é a incidência cada vez maior da política naquilo que tradicionalmente se encarou como a esfera mais ou menos apartada da cultura e das artes. Na vanguarda desse processo estão movimentos como o feminismo, que, por vocação, desde o início tiveram a cultura como espaço privilegiado de luta e debate. Por isso, as formas de expressão artística que tematizam de um modo ou de outro o feminino ou o feminismo passam a ocupar uma posição especial na reflexão contemporânea. Este debate reflete na forma como mulheres artistas criam conteúdo e também na recepção desta chamada “arte feminina”, criando exigências que não se impõem à arte produzida por homens. Ao mesmo tempo, a recorrência de certos temas na arte feita por mulheres, como a violência de gênero ou o machismo em geral conduz, de um lado, à noção de que há um repertório mais ou menos dado de experiências que caracterizariam uma “condição feminina” e, de outro, a presunção de que a “arte feminina” teria por obrigação “dar conta”, de algum modo, dessa problemática. Gostaria de apresentar, sem qualquer pretensão a resolvê-las, algumas das tensões e ambiguidades na produção e na crítica de arte a que esse quadro dá lugar, excepcionalmente ricas por entrelaçarem arte, vida e política, a partir de um episódio da série Girls intitulado provocativamente “American Bitch”.

 

O seriado foi criado, dirigido e estrelado por Lena Dunham a partir de 2012 com a última temporada em 2017. O enredo narra a história de Hannah Horvath, aspirante a escritora que começa a série aos 24 anos, quando perde o apoio financeiro dos pais, e suas amigas: Marnie, Jessa e Shoshanna. São quatro jovens de classe alta em Nova York, lidando com as dificuldades do início da vida adulta.

 

Na última temporada do seriado Hannah protagoniza um episódio no qual nenhuma das amigas está presente. Em “American Bitch”, Hannah vai à casa de um escritor famoso, a convite dele, sobre quem ela escreveu uma denúncia em um site. O texto de Hannah diz respeito a acusação de assédio sexual por uma jovem universitária contra o escritor, de forma que a personagem corrobora a denúncia. No episódio, o escritor a convida justamente para conversar sobre o texto de Hannah e explicar seu ponto de vista sobre o ocorrido.

 

O episódio começa com Hannah caminhando até o apartamento do escritor, Chuck Palmer. Hannah diz a ele que não pretende ficar e que está surpresa por ele ter encontrado o artigo e querer conversar. Ele responde que não a chamou ali para se desculpar, mas para contar “seu lado da história”. O episódio é uma conversa entre os dois, na qual Palmer tenta “explicar” para Hannah como o que aconteceu teve um impacto negativo em sua vida pessoal. Chuck tempera sua defesa com elogios à escrita de Hannah e considerações sobre seu potencial como ficcionista. Uma moça tão talentosa como Hannah, diz Chuck, deveria se interessar por outros assuntos mais importantes do que um suposto assédio sexual. A denúncia, segundo seu ponto de vista, é o exagero de uma garota ressentida: o encontro entre com a jovem acusadora teria sido consensual. A única culpa de Chuck, no seu próprio parecer, foi não ter querido conhecer a jovem melhor. No fim, ele convida Hannah para ir ao quarto ver livros autografados, presenteia Hannah com um livro autografado por Philip Roth – que como a própria personagem reconhece, apesar de ser um de seus ficcionistas prediletos, é uma figura problemática – e convida Hannah a deitar na cama. Ela deita, constrangida, enquanto ele explica que aquele ato é estritamente não sexual. Até que ele se vira para ela sem as calças. Nesse momento Hannah toca nele e inicia um contato sexual, mas logo se arrepende e levanta, mostrando os limites e nuances do consentimento e do constrangimento. Sem que nos tenham sido fornecidos os pormenores do caso, a cena nos leva a desconfiar do argumento de Chuck sobre a consesualidade do encontro com a outra moça: Hannah deita na cama com ele sem que ele tenha recorrido a nenhum tipo de coação física – e no entanto, vemos claramente que o desenlace potencialmente traumático da visita de Hannah a Chuck Palmer dificilmente pode ser considerado um escolha espontânea (isso, é claro, por parte de Hannah, pois há boa razão para crer que todas as etapas da visita fazem parte de um número ensaiado inúmeras vezes por Chuck). O episódio termina com Hannah se afastando do prédio do escritor enquanto outras mulheres vão andando em direção a portaria.

 

O episódio apresenta um problema que aparece com frequência para as mulheres artistas e nunca para os homens: existe uma experiência feminina essencial passível de representação? Essa experiência é necessariamente de opressão masculina e violência? Por que a arte produzida por homens é interpretada como “neutra” enquanto aquela produzida por mulheres aparece como arte feminina? Essa mesma contradição está presente nos movimentos feministas, na discussão em torno da mulher como sujeito político identitário, e nos estudos de gênero, que têm por pressuposto o questionamento da noção de feminilidade enquanto atributo biologicamente dado. Não posso deixar de apontar também uma contradição interna a este próprio texto: analisar um episódio sobre assédio sexual em Girls não seria simultaneamente construir e desconstruir uma essência feminina na arte? Essa contradição é inerente a qualquer projeto político identitário?

 

A história da reflexão em torno da ideia de gênero aponta para o desmonte de um duplo processo de naturalização que concorre para a essencialização da arte produzida por mulheres: de um lado, convenciona-se pensar que diferenças entre homens e mulheres sejam inatas ou naturais; por outro, o poder de ação e enunciação na cultura é distribuído desigualmente em função dessas diferenças (além de outros cortes como classe e cor). Por isso, as autoras feministas usam o termo gênero para referir-se ao caráter cultural das distinções entre homens e mulheres e feminilidade e masculinidade, indicando que seria impossível pensar em uma “mulher em si” e ao mesmo tempo, demonstrando que existem experiências compartilhadas a partir de determinados contextos sociais, o que dá ao conceito de gênero uma palpabilidade que não deixa nada a dever à distinção baseada numa suposta natureza, diferentemente do que supõe um senso comum geralmente reativo à problematização desta última.

 

A primeira onda do feminismo ocorreu no final do século XIX e início do XX na Europa e EUA, quando muitas leis eram diferentes para homens e mulheres, com a luta por direitos iguais a cidadania supondo a igualdade entre os sexos. As feministas reivindicavam principalmente o direito ao voto, o acesso à educação e à propriedade. Partiam do slogan "se a subordinação da mulher não é justa, nem natural, como se chegou a ela, e como ela se mantém?". Nas décadas de 1950 e 1960, os grupos feministas continuavam lutando pela igualdade de direitos. Em 1949, Simone de Beavouir publica o clássico O segundo sexo. Para a autora, eliminar a dominação masculina passava por mais do que apenas mudar as leis, mas também por enfrentar os mecanismos sociais que situavam a mulher em um lugar inferior – mecanismos predominantemente “culturais”, normalmente considerados como parte da esfera privada e fora do alcance da discussão política. Para tal, era preciso modificar a educação que preparava as meninas para agradar os homens, para o casamento e maternidade; o caráter opressivo do casamento como obrigação e busca por proteção e não por amor; o fato de a maternidade não ser uma escolha da mulher; a vigência de um duplo padrão de moralidade e a falta de trabalho digno para mulheres. Na conhecida formulação de Beauvoir,

Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto...

O segundo sexo é considerado o precursor da chamada segunda onda do feminismo, que pensava a subordinação das mulheres como histórica e geograficamente situada, mas também como universal, pois pode ser encontrada em todas as épocas e períodos históricos. O suposto caráter natural dessa subordinação é questionado; é a partir daí que vai despontando o entendimento de que ser mulher é uma construção social. Assim, as feministas a época reivindicavam igualdade de direitos e questionavam as raízes culturais das desigualdades. Procuraram explicar essa subordinação através de categorias como: mulher, opressão e patriarcado. 

 

A partir de então, o movimento feminista e os estudos de gênero tiveram – e têm – uma relação de retroalimentação. Nos anos 1970, as formulações de gênero tiveram impacto e foram reelaboradas em conjunto com o movimento feminista utilizaram a noção de gênero como culturalmente produzido para realizar uma crítica mais abrangente das desigualdades sociais entre homens e mulheres, demonstrando a partir dos achados da teoria o caráter politicamente construído dessas desigualdades, de modo a concebê-las como potencialmente mutáveis.

 

A ideia de “mulher” enquanto categoria política foi desenvolvida sobretudo nos EUA, pensando a opressão das mulheres para além de classe e raça, atingindo todas as mulheres. Entretanto, no momento de sua primeira formulação, essa identidade criada combinava traços biológicos e sociais. Assim, era preciso que as mulheres definissem o que experienciavam como opressivo. Essa concepção alargada do político passava a envolver qualquer relação de poder, mesmo fora da chamada esfera pública. Surge então a ideia de que "o pessoal é político" e de que as relações amorosas e familiares também podiam ser matéria de reflexão e crítica. Algumas dessas ideias remontantes ao ambiente cultural dos anos 1970 são revistadas em Girls – no episódio que viemos comentando, o mote para o encontro é uma denúncia de assédio sexual e todas as cenas são dentro do apartamento do escritor.

 

O patriarcado foi conceituado, na mesma época, como um sistema social no qual a diferença sexual serve como base da opressão e da subordinação da mulher pelo homem. Estruturado em torno do controle do corpo da mulher para fins reprodutivos e sexuais definidos pelos homens, no centro do patriarcado estaria uma unidade familiar na qual o poder sobre os filhos e a esposa é exercido exclusivamente pelo pai. O conceito foi sendo utilizado sem atenção para certas particularidades históricas e tornou-se, do ponto de vista de boa parte da reflexão mais recente, vazio e vago, falando de uma opressão naturalizada em termos metodológicos. Apesar de ter surgido de um louvável esforço para desnaturalizar a subordinação feminina, o conceito de patriarcado perdeu sua precisão e força analítica, dando lugar à primazia do gênero na teoria feminista contemporânea.

 

Na década de 1980, a identidade política feminina criada pelo feminismo para a reivindicação de direitos começa a ser questionada por feministas negras e mulheres do terceiro mundo, que afirmavam que seus interesses tinham sido negligenciados pela ênfase em uma identidade única entre mulheres, terminando por favorecer mulheres brancas e de classe alta. Mulheres negras atentavam, por exemplo, para a discussão sobre direitos reprodutivos, que não poderia estar centrada apenas no aborto, mas também na garantia de que seus filhos já vivos não fossem assassinados. Mulheres de terceiro mundo mostravam que a ênfase na identidade tornava práticas como o uso do véu expressões da opressão masculina, ignorando as relações de desigualdade entre os países, de modo a favorecer um encaminhamento da questão favorável aos dispositivos de dominação coloniais e neocoloniais. Os movimentos feministas precisaram reconhecer que a experiência das mulheres estava marcada por raça, classe, orientação sexual e especificidades regionais. Segundo Maria Clara Araújo no artigo “Mulher trans negra e feminismo”:

 

A interseccionalidade surge a partir de quando mulheres negras não se viam como sujeitos políticos, afinal, nos dois movimentos que supostamente viriam a nos contemplar, nossa vivência não estava sendo pautada da forma como acreditamos que deveria ser. Por isso, temos enegrecido o feminismo e feminilizado o movimento negro, vem a explanar nossas formas de termos percebido a importância de ter transversalizado as opressões, assim tento entendido que gênero, classe e raça são discussões que precisam andar juntas.

 

Para essas feministas, o foco no gênero obscurecia ainda outras particularidades e diferenças entre mulheres. Propunham, portanto, que o gênero fosse pensado como parte de um sistema de diferenças, criticando um conceito de poder a partir de um modo de operação binário subordinação/dominação. Essas novas leituras sobre gênero fazem ainda um esforço radical para eliminar qualquer naturalização da diferença sexual. A partir dos anos 1980, são o sexo e a própria natureza que passam a ser pensados como produtos culturais, de modo a contemplar conceitualmente pessoas que resistem à classificação binária entre homens e mulheres, como pessoas intersex e transexuais.

 

Assim, vemos que tais desenvolvimentos críticos apontam para a urgência de reconsiderar o sujeito político “mulher”, inclusive nas expressões artísticas que pretendam dar-lhe voz. Interpretando o episódio de Girls a partir deste histórico é possível entrever que a produção feita por mulheres não possui uma essência ou temática necessária. Simultaneamente, o episódio e o seriado em geral retomam a ideia de uma experiência compartilhada entre mulheres, e é preciso ressaltar que essa experiência é matizada por outras diferenças como classe e raça. As categorias de subordinação, opressão e patriarcado podem servir para interpretar o episódio de forma política, ainda que no plano teórico tenham sido questionadas pela ideia de uma relação monolítica de poder, o que mostra que não há consenso interno nos movimentos feministas e nos estudos de gênero sobre a validade a aplicabilidade dos conceitos. Essas categorias funcionam politicamente por negar uma diferenciação entre homens e mulheres determinada pela biologia e favorecer explicações de cunho social. Portanto, o episódio retrata essa tensão inerente a história dos estudos de gênero e do movimento feminista.

 

A diferença é um problema central desde o surgimento do movimento feminista, amplamente discutido nos anos 1960 no embate entre as correntes à época conhecidas como "feminismo da igualdade” e “feminismo da diferença”. As feministas “da igualdade” defendiam a distribuição igualitária de direitos e bens entre homens e mulheres, diminuindo as diferenças entre eles, enquanto as feministas “da diferença” valorizavam os atributos entendidos como femininos e entendiam que a luta feminista deveria ser para que estes se tornassem os valores hegemônicos da sociedade, criticando o que consideravam um assimilacionismo da concepção de mundo androcêntrica da primeira linha. Esse segundo caminho foi posteriormente criticado por ser essencialista. O debate ainda se faz sentir nos movimentos feministas atuais – um exemplo especialmente ilustrativo é o retorno dos movimentos de afirmação da sacralidade do feminino. Em “American Bitch”, somos levados a considerar uma questão ontológica e intrinsecamente contraditória na produção feminista: a própria definição de “mulher”, enquanto sujeito político do movimento social. Experimentamos aqui de forma condensada a polifonia temporal e conceitual da prática feminista.

 

Os feminismos contemporâneos, em razão dos questionamentos de feministas trans e negras, também estão implicados no debate. Há então um aparente paradoxo das políticas identitárias que partem da ideia da unicidade do sujeito. Autoras como Judith Butler e Paul Preciado têm argumentado a favor da luta política independente das identidades afixadas, uma política de multidão, que reconhece que não há qualquer base natural para noções como “mulher” ou “gay” que possa determinar monocraticamente a ação política. As demandas feministas e as ficções escritas por mulheres estão conectadas desde o século XVII. Há um correlato entre as reinvindicações dos movimentos feministas e as utopias e distopias criadas nos livros de ficção científica escritos por autoras. Podemos pensar o episódio de Girls nesta chave da relacionalidade entre ficção e demandas feministas.

 

Voltando ao conteúdo do episódio, que trata de uma jovem feminista fazendo uma crítica a um escritor consagrado, não pelo que ele escreve, mas pelas atitudes, podemos notar que, além de mostrar como o processo de denúncia é cruel, e muitas vezes fica circunscrito aos próprios círculos feministas, já que fora deles as acusações são entendidas como levianas. Assim, apesar de ser um episódio em uma série de ficção, trata de questões atuais dos debates feministas e também de temas que são recorrentes ao longo da história do movimento, como a noção de que o pessoal é político. O episódio trata ainda da importância da não culpabilização da vítima, tema central nos feminismos contemporâneos. Outra questão tratada no episódio e nos debates feministas atuais é a de uma dimensão posterior do trauma: ainda que a relação sexual entre o escritor e a jovem tenha sido consensual no momento do acontecido, ela pode ser repensada depois.

 

O fim do episódio mostra Hannah se afastando do prédio, enquanto outras mulheres jovens se aproximam da portaria do escritor, como em uma espécie de aviso, que o feminismo tem algumas vitórias, mas ainda é necessário. Os debates apresentados no episódio analisado à luz das teorias de gênero e demandas do movimento feminista mostram que as experiências de mulheres são muitas e distintas, não podendo ser reduzidas à biologia ou à reprodução. Nos anos 1990, as feministas já atentavam para como as categorias de “homens” e “mulheres" são ao mesmo tempo vazias e transbordantes. Vazias justamente porque não têm significado transcendente ou essencial, mas transbordantes porque mesmo quando parecem fixas contêm outras definições alternativas.

 

O episódio indica também a complexidade das situações frente às teorias; especialmente no que diz respeito ao consentimento, quando, no final, Hannah se deita com Chuck, ao mesmo tempo, constrangida, mas sem ter resistido de forma ostensiva. Assim, o seriado também não apresenta nenhuma solução possível para o caso – talvez seja esse um sentido possível para a tomada final, na qual vemos Hannah indo embora, enquanto outras mulheres caminham em direção ao apartamento.

 

Assim, a experiência tratada no episódio não pode ser pensada como fundamental ou essencial, da mesma forma que nenhuma arte feita por mulheres. Ao mesmo tempo, apresenta debates não resolvidos nos movimentos feministas contemporâneos sobre identidade política. De um lado, podemos dizer que a teoria feminista alimenta, no caso de Girls, a criação poética, devolvendo à vida algumas de suas reflexões por meio de um artefato artístico. O caráter aberto da obra, contudo, não nos permite tirar conclusões definitivas. Da mesma forma, talvez o melhor não seja esperar que o debate produza uma “solução” num sentido único, pois, no feminismo como mostra o pequeno panorama histórico aqui traçado, algumas tensões são produtivas e fortalecem, dando vida ao movimento.∎ 

Edição: André Martins

Brena O’Dwyer é mestre em Saúde Coletiva pelo IMS/UERJ, doutoranda em Antropologia Social pelo PPGAS/MN/UFRJ e pesquisadora no NuSEX (Núcleo de Estudos em Corpos, Gênero e Sexualidade). A foto acima foi tirada no Museu Nacional.

brenaspina@gmail.com