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eclética, plural e marxista-cultural

Carta dos editores

Tão ameaçador quanto os desenvolvimentos políticos recentes é o estofo cognitivo que os preenche. O neofascismo é o reinado da impaciência informacional: da enxurrada de ‘polêmicas’ e escândalos cujo ritmo não deixa respirar, da recusa da leitura de qualquer coisa não agônica, do afastamento arbitrário do que não se encaixa em crenças preconcebidas.

 

Parte importante da resistência é recusar o modo como a luta nos é apresentada. É preciso um esforço para construir um espaço em que a reflexão, a sensibilidade e a alteridade sejam soberanas; que permita uma desaceleração e uma abertura a outras perspectivas. Munidos desse espírito lançamos a terceira edição da Capivara.

 

Alguns textos da edição usam esse espaço para sugerir mundos diferentes. Antonio Kerstenetzky, em “O amor na filosofia da busca”, inspira-se na figura do Sócrates dos Diálogos de Platão para levantar um problema: como conciliar um tipo de filosofia “ascendente”, representada pela saída da caverna, com a necessária descida de volta do filósofo? A resposta passa pela defesa do papel do amor na prática filosófica. “Ensaio Aberto”, de Maria Lessa, propõe a reflexão sobre a relação entre forma e conteúdo, tema clássico da estética, como motor da criação de uma sala de aula voltada à interpretação da poesia. Já “Materialismo e Mesopolítica”, de Vinícius Portella, se inscreve em uma discussão contemporânea sobre o materialismo para, partindo de uma proposta de Isabelle Stengers, avançar uma nova concepção de política, feita em uma escala compreensível a seus atores.

 

Outros exploram relações inauditas. Em “A máquina funciona”, de Fernanda Lobo, a autora assalta preconcepções sobre o corpo, a escrita e a lei, explorando diversos contextos em que essas coisas se relacionam. Seu “ensaio de paráfrases” explicita como essas relações não são em nenhuma medida óbvias. Já em “o homem visto por dentro”, Arthur Resende revela a sofrida genealogia por trás do comportamento masculino; o narrador de seu conto tem de lidar com a sombra do Homem sempre a observar por cima de seu ombro. Publicamos também uma seleção de “Poemas” de Reina María Rodriguez, célebre poeta cubana contemporânea, junto à tradução inédita de Chayenne Mubarack a ser lançada em breve pela Malha Fina Cartonera.

 

Ainda nesta edição, temos a nossa primeira entrevista. Hugo Salustiano conversou com Renée Nader Messora e João Salaviza, diretores de Chuva é cantoria na aldeia dos mortos, filme de ‘docu-ficção’ rodado na aldeia Krahô de Pedra Branca, no Tocantins. Ritos de brancos, ritos de índios” mostra toda a sensibilidade envolvida na elaboração do filme, cujos atores são os habitantes da aldeia, encenando algo que poderia ser suas vidas.

 

Boa leitura! ∎

n. 3 | 04-2019

Antonio Kerstenetzky

Luiz Eduardo Freitas

Editores 

André Martins

Clarisse Lyra

Daniel Mano

Hugo Salustiano

Nathalia Carneiro

Victor Fernandes

Conselho editorial

Beatriz Reis

Luiz Eduardo Freitas

Projeto gráfico

Foto de chamada: Fernanda Morse

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