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eclética, plural e de quarentena

Carta dos editores

Este é um momento estranho para lançar uma revista; é um momento estranho para compor e publicar qualquer coisa. O futuro se desfaz e refaz com velocidade estonteante. Em um instante, a ameaça mais concreta é o autoritarismo. No seguinte, o colapso do sistema de saúde e a morte de dezenas de milhares de pessoas. De vários lugares, vozes que raramente conseguem se fazer ouvidas nos centros de poder gritam, lancinantes, “parem de nos matar”, “nossas vidas importam”.

Enquanto lá fora soçobram as nossas frágeis instituições e vidas negras são aniquiladas, os mais afortunados entre nós estão enfurnados em casa, esperando o tempo incerto em que será ‘seguro’ sair. A Capivara lançou um pedido de colaborações que preenchessem de cor as formas desse isolamento forçado. Esta edição é um escoadouro de gritos de revolta, meditações de melancolia, análises de conjuntura e suspiros de nostalgia. É um emaranhado de intervenções, resultantes dos feixes de sensações que nos atravessam e transformam enquanto o mundo convulsiona.

Assim, apresentamos um dossiê de ‘poesia de quarentena’: ilustrados pelos desenhos de João Victor Barbosa, são recortes de estados de isolamento, alguns mais singelos, outros mais loquazes, uns ponderados, outros abruptos, unidos por partirem desse estado mais ou menos comum que fomos forçados a habitar. 

Já Joilson Santana expõe, em Carne queimando, cinzas, carvão e sangue: qual a novidade?, a culminação do sempre existente racismo brasileiro na festa macabra a que temos de assistir ser diariamente celebrada no Planalto e no Alvorada. Antonio Kerstenetzky, em A pandemia é uma guerra?, mostra como chamar a pandemia de ‘guerra’ é um modo de tentar projetar um futuro em que tudo será ‘como antes’, sem que se reconheça que o que estamos passando é uma agudização de problemas sempre existentes. Em Pensar a pandemia, diálogo traduzido por Mariana Ruggieri e Luiza Mançano, as filósofas argentinas Virginia Cano e Tamara Tenembaum meditam sobre desejos, expectativas e sobretudo incômodos provocados pelo isolamento social.

Trazemos também algumas intervenções poéticas e ensaísticas em outros campos. Pedro Barbieri defende um ‘uso’ dos textos clássicos que os tornem verdadeiramente parte de conversas contemporâneas, contra a tendência autojustificatória e isolacionista da academia, em As obras clássicas não precisam de nós. João Moraleida entorna um fluxo biográfico da infância na porta da igreja à trama complexa de primeiros beijos que se tornam memória nostálgica, escorrendo  inexoravelmente em Todos os dias vão ao seu fim. Finalmente,  Luciana Quintão de Moraes entremeia com fios indestrutíveis imagens e palavras em seus Poemas de transposição ecfrástica

 

Boa leitura! ∎

n. 5 | 06-2020

Antonio Kerstenetzky
Clarisse Lyra

Luiz Eduardo Freitas

Editores 

André Martins

Daniel Mano

Hugo Salustiano

Nathalia Carneiro
Pedro Motta

Victor Fernandes

Conselho editorial

Beatriz Reis

Luiz Eduardo Freitas

Projeto gráfico

Ilustrações:

João Victor Barbosa